À guisa de conclusão: E as outras cidades e experiências deste tipo?

Afinal em que termos?

Um dos aspectos mais marcantes da globalização é a possibilidade que dá aos seres humanos de irem a lugares do planeta. Embora isto não ocorra para todos, pelo menos é possível para os que assim o desejem, alem de, claro, os que o fazem por razões profissionais.
Esta experiência que tive de Buenos Aires é típica, e as outras que tive com outras cidades também.
Pensei em como poderia colocar em perspectiva isto e me caiu nas mãos uma reportagem publicada pelo NY Times exatamente sobre isto e uma série de cartas dos leitores deram a perspectiva que eu procurava.
Embora este critério padeça do problema que é esta mania de estabelecer um “ranking” ou classificação  e que reflete um aspecto não muito adequado do “american way of life” que é muito discutível, serve para um dos critérios.
Nosso planeta  ficou pequeno, mas ainda é muito grande, talvez infinito, dentro do imaginário das pessoas e uma consideração destas tem que levar em conta o observador e o ponto de fuga da perspectiva, que no nosso caso oscila entre Europa e Estados Unidos e, subitamente…, América Latina…
Não consigo ter outro tipo de consciência ou percepção, pois pertenço e vivo neste mundo, mas digo apenas para informar a razão desta colocação e, se houver algum Roque chinês que o faça centrado em Pequim, ou Beijing e Moscou, ou Moskva, nada tenho contra e apreciaria imensamente conhecer a experiência.

Porque Nova York e Paris?

Creio que embora haja concordância sobre a preferência por estas duas cidades para os fins deste trabalho sobre as razões que Buenos Aires seduz, não é algo que se consiga demonstrar e sempre vai ser questão de opinião.
Mas existem razões.
Paris é óbvio, basta ir lá. Mas não nasceu pronta, e vale ver um pouco como ela chegou onde está no imaginário das pessoas..
Nova York não é tão óbvia e requer um pouco de conjetura.
Não vou elaborar outras cidades que geram encanto e sedução, mas irão aparecer nos comentários das reportagens do NY Times e nos meus.
Sinto que Buenos Aires tem que pertencer a este elenco…

Paris

Eu mencionei na introdução que existem cidades “literárias”, como claramente é o caso de Paris e este é o enfoque que vou enfatizar do ponto de vista da “Geração Perdida”, tendo em vista que o enfoque de Borges e Coppola se enquadra na mesma categoria e é a conclusão a que quero chegar.

Lost Generation (Geração Perdida)

Geralmente este é um termo atribuído a Gertrude Stein e que foi popularizado por Ernest Hemingway em seu livro O Sol Também se Levanta e em suas memórias no livro A Moveable Feast. Vejo no site da Livraria Cultura uma sinopse de Moveable Feast, que foi traduzido como Paris é uma Festa:

“ ‘Paris é uma Festa’ revela um Hemingway diferente. Em Paris, aos 22 anos, ele lê, pela primeira vez, clássicos como Tolstói, Dostoievski e Stendhal. Convive com Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, figuras polêmicas e encantadoras para o jovem Hemingway. A cidade e esses ‘companheiros de viagem’ deram-lhe nova dimensão do humano e maior sensibilidade para alcançar os seus dois objetivos primordiais na vida; ser um bom escritor e viver em absoluta fidelidade consigo próprio. Há, em ‘Paris é uma Festa’, momentos de suave melancolia, alternados com outros de cortante, quase selvagem crueldade.”

Faltou mencionar que ele conta sua vida com sua primeira esposa Hadley, da pobreza em que vivia num quarto alugado num bairro pobre que não tinha banheiro e às vezes ele não tinha como pagar uma das refeições do dia. Porem não é bem a miséria que se supõe, pois os Hemingway não abriam mão de ter empregada para cuidar do filho e gastavam suas economias viajando para  algum lugar da Europa.
Os franceses ainda não tinham sido invadidos pelos turistas, especialmente os americanos e conta-se que alguns donos de bares forçavam seus garçons a se barbearem e cortar o cabelo como os americanos, para atraí-los e os tratavam com atenção, interessando-se pelo que faziam. Ainda haviam pescadores no Rio Sena e a vida era boa. Coisas impensáveis hoje em dia. Um dos capítulos do livro começa assim:

 “Quando a primavera chegava, mesmo a falsa primavera, não havia problemas exceto o de onde ser mais feliz. A única coisa que poderia estragar um dia eram as pessoas, e se você pudesse evitar compromissos, cada dia era ilimitado. As pessoas eram sempre as limitadoras da felicidade, com exceção daquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera.”

Da Geração Perdida, talvez Hemingway seja o mais lido e o mais lembrado no tipo de discussão que estamos fazendo aqui e uma apreciação dele requer um espaço à parte e dou umas pinceladas apenas para nossas finalidades:

Ernest Hemingway

Hemingway é uma figura emblemática e exerce fascínio não só sobre os leitores de língua inglesa, como todos os leitores, creio que até do Oriente.
Ele foi a Paris como jornalista, mal acabara o ginásio, chegando como jornalista do Kansas City Star antes dos 20 anos. Posteriormente iria ser correspondente de guerra na Espanha.
Segundo consta, tentou alistar-se para participar na 1ª guerra mundial, (ele nasceu em 1899, mal tinha 18 anos e quando a 1ª guerra começou, tinha 15) mas não foi aceito por problemas de visão. Acabou participando como motorista de ambulância da Cruz Vermelha.
Antes de ganhar o Premio Pulitzer de 1953, com O Velho e o Mar, e o Nobel de Literatura em 54, transformando-se no escritor de renome que é, foi jornalista, tendo sido correspondente de guerra  do North American Newspper Alliance
Se a década de 20 (roaring twenties, como dizem os americanos), foi uma festa, a de 30 foi marcada pela Grande Depressão. Hemingway, já na Espanha, acabou alistando-se com os rebeldes espanhóis, lutando contra o fascismo, na guerra civil espanhola de 1937 e uma de suas melhores obras, talvez a melhor, Por Quem os Sinos Dobram, de 1940, relata esta experiência.
Hemingway identificou-se com os espanhóis, sendo notória sua paixão por touradas, tendo sido toureiro amador. Isto se refletiria não apenas em Por quem os Sinos Dobram, como já em outra obra famosa sua, O Sol Também se Levanta, de 1926.
Hemingway casou-se quatro vezes e apaixonou-se inúmeras outras vezes.
Aliás, um de seus apaixonamentos foi pela enfermeira Agnes Von Kurowsky, que o inspirou na criação da heroína de Adeus às Armas, em 1929, a inglesa Catherine Barkley, na sua passagem pela Itália.
Ele retornou a Oak Park, EUA, após ter sido atingido por uma bomba na sua experiência de combatente na guerra civil espanhola.
É algo desagradável de mencionar, já que estamos celebrando a vida, mas o tema de suicídio é recorrente na obra de Hemingway. O pai dele suicidara-se em 1929 por problemas de saúde e financeiros e a mãe, que era um tanto quanto neurótica, enviou a ele a pistola que o pai se suicidara gerando nele uma duvida se a mãe estaria sugerindo a ele suicídio ou que apenas guardasse a arma como lembrança.
Culminou que ele aos 61 anos, com problemas de saúde, principalmente depressão e perda de memória, acabou suicidando-se da forma como é notoriamente sabida de disparar um fuzil contra si mesmo, em Ketchum, Idaho, EUA, a 2 de Julho de 1961.
Como experiência aventureira, foi imbatível, um Ulysses moderno, com uma saga muito mais romântica, porem trágica.
Por falar em Ulysses, vou pincelar James Joyce também, mas antes, vejamos:

Gertrude Stein

Faço minhas as palavras da Wikipedia, perfeitas para o que queremos:
Ela nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1874 em Pittsburgh, EUA e morreu no dia 27 de Julho de 1946 em Paris, França, tendo sido escritora, poeta e feminista.
Tinha um apreciável círculo de amigos, que ficariam célebres, como Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Cocteau, Apollinaire, Francis Picabia, Ezra Pound, Ernest Hemingway, James Joyce, Nijinski para citar alguns e e provavelmente outros desta época tão criativa em Paris.
Miss Stein era realmente genial e escreveu “Autobiografia de Alice B. Toklas”, livro fundamental da vanguarda dos anos 1910, 20 e 30. Com estilo muito próprio, a narrativa conta como jovens artistas e escritores vindos das mais diversas partes do mundo se encontravam em Paris e abriam novos caminhos para a arte. Picasso vinha da Catalunha, Joyce da Irlanda, ela própria vinha da América, Nijinski era russo, havia vários franceses, como Cocteau, Apollinaire, Matisse. É bom lembrar que, apesar do nome, o livro foi escrito por Miss Stein, tendo como porta-voz Alice B. Toklas, sua companheira durante vinte e cinco anos. Compondo um interessante painel das três primeiras décadas deste século: “Gertrude Stein e o irmão visitavam frequentemente os Matisse que constantemente retribuíam as visitas. De vez em quando Madame Matisse convidava-os para almoçar, o que acontecia principalmente quando recebia alguma lebre de presente. Lebre estufada feita por Madame Matisse à moda de Perpignan era algo fora do comum. Tinha também vinho de primeira, um pouco pesado, mas excelente”. Durante esse tempo Miss Stein e sua companheira Alice viveram no número 27, Rue de Fleurus. Este endereço se tornaria lendário e um importante ponto de encontro desses “gênios”.
Gertrude Stein seria a primeira a pendurar em sua parede pinturas de Juan Gris, Matisse e Picasso. Mais tarde romperia com muitos deles, inclusive com Picasso, por quem manteve grande afeição. Antes porém, posaria noventa e três vezes para que o artista catalão desse por finalizado o seu retrato: “Mas em nada se parece comigo, Pablo” disse ela. “Mas certamente vai parecer ,Gertrude, certamente…” respondeu o pintor. O rompimento dos dois se daria apenas em 1927, por ocasião da morte de Juan Gris. Gertrude acusou Picasso de não ter estimado Gris o bastante, ele retrucou e os dois tiveram um belo e histórico bate-boca.

Miss Stein adorava fazer provocações. A palavra gênio exercia mesmo uma influência considerável em sua vida. Afinal era uma escritora de estilo bastante peculiar e engenhoso, a inventora da escrita automática. Assim os intelectuais de seu tempo perguntavam se ela era mesmo gênio ou não passava de uma impostora. Ela dava o troco:“Ser gênio exige um tempo medonho, indo de um lugar a outro sem nada fazer”, ou então:” um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz”.

Com a Primeira Guerra Mundial,  Miss Stein e Alice viveram sua aventura alistando-se no F.A.F.F, um Fundo de proteção aos americanos que então viviam na Europa, dando folga a seus embates artísticos e literários, a aventura é narrada na Autobiografia. Após a guerra a vida voltou ao normal mas tudo já estava transformado para sempre, inclusive e principalmente Paris. Não tanto a fachada e a arquitetura da cidade, mas as pessoas e o ritmo da vida.

Segundo a própria autora, suas principais referências são Cézanne e Flaubert, sendo, no entanto, seus textos cheios de repetições intencionais, como em uma espécie de “gagueira mental”, geradores de um sem sentido muito próximo dos trabalhos dadaístas. É possível extrair algum sentido de seus poemas, de acordo com uma gestalt,  porém, parecem eles muito mais a experimentos sonoros. O efeito, às vezes, é próximo do efeito da leitura de um poema surrealista, embora a técnica de composição seja completamente diferente, lembrando, por vezes, a poesia mais conhecida de E.E.Cummings. Seus poemas são, muitas vezes extensos, embora nunca cedam à lógica, explorando, além das repetições de vocábulos, o uso de palavras monossilábicas, assemelhando-se a poemas em prosa. O concretismo, inventado no Brasil, exploraria isto das mais diversas maneiras e Augusto Campos, expoente deste estilo, traduziu poemas dela.

Paris à meia noite

Já que isto aqui não é uma tese  ou trabalho acadêmico, e pretende apenas divertir ou criar condições para que se possa “ver e enxergar”, vale citar a licença poética de Woody Allen, que  foi muito feliz em criar imagens para o que vai acima no seu filme “Paris à Meia Noite”.

Woody Allen recria Paris nos anos 20 e apresenta tertúlias, encontros e situações onde Hemingway e Fitzgerald são o centro das atenções e alguns dos personagens  da época aparecem e, embora não digam e não façam nada, provocam no espectador uma imaginação fantástica, especialmente se tiver noção de cada personagem. Infelizmente Woody Allen não colocou James Joyce no filme, nem Ezra Pound, bem como muitos outros, mas James Joyce nos interessa particularmente.

James Joyce

Embora irlandês, pertenceu à Geração Perdida.
Para a conclusão que quero tirar deste trabalho, é preciso elaborar um pouco sobre James Joyce, não porque todas estas outras ilustres e talentosas figuras não mereçam, mas porque Joyce foi autor talvez do livro mais complexo e talvez mais perfeito sobre uma cidade que se tem noticia, que foi Dublin, que ele teve a intenção de que pudesse ser recriada através do seu livro Ulysses.

Ulysses

Foi publicado em 1922 e sua publicação também merece uma nota especial e explico porque lá e as circunstancias que envolveram esta publicação acabaram fazendo de  1922  um ano fundamental na história do modernismo na literatura de língua inglesa.
T S Elliot fundou a Revista Criterion e publicou The Wasteland.
O Premio Pullitzer de poesia foi estabelecido.
James Joyce publica Ulysses.
Porém, no Brasil foi o ano mais representativo que se tem noticia para nossa literatura e comento a parte.
Quanto a Ulysses, este livro adquiriu notoriedade inicialmente mais pela sua proibição que pelo seu conteúdo, já que é um livro que é de “segunda intenção”,  isto é, não é o que está escrito que vale, mas o que esta por trás.
Foram  as descrições dos aspectos fisiológicos da natureza humana que impediram sua publicação e não seu conteúdo, que demoraria muito tempo para ser percebido e representava um considerável avanço para as limitações que a palavra impressa representa na representação da saga humana, especialmente na literatura.
A segunda intenção de Joyce é de uma complexidade e confusão estonteante, em Inglês, e sua tradução para outras línguas, apresenta um obstáculo dos mais poderosos que existem intelectualmente.
O estilo confuso de, Joyce,  é chamado de fluxo de consciência, com paródia, trocadilhos e virtualmente todas as demais técnicas literárias que existem para apresentar seus personagens.
Pessoalmente, já tentei inúmeras vezes ler o livro, mas não consigo saboreá-lo e neste momento de minha vida, eu alimento um projeto de vida que é explicar James Joyse e suas obras, especialmente  Ulysses, e Finnegan’s Wakeque pode ser visto no estagio que está clicando-se aqui.
A primeira tradução para o Português de Ulysses foi feita pelo dicionarista e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Houaiss em 66. Existe outra menos famosa, de Bernardina Pinheiro, em 2005. Há ainda uma tradução inédita, assinada por Caetano Galindo. A primeira edição da obra em Portugal, em 1983, foi uma adaptação do texto de Houaiss, com alteração apenas ortográfica. Somente em 1989 foi publicada uma tradução portuguesa, assinada por João Palma-Ferreira.
Não fazem sentido algum, ou melhor, não fazem o sentido que Joyce teve em mente, como aliás não faz sentido em Inglês mesmo para quem conhece apenas o idioma.
Uma coisa notável é que existe um culto ao livro, que levou à criação do Bloomsday, comemoração celebrada na Irlanda e em várias outras partes do mundo no dia 16 de Junho, dia em que ocorre a narrativa do livro.
Alias, o Ulysses de Joyce adapta a Odisséia de Homero, condensando a viagem de Odisseu (na pessoa do agente de publicidade Leopold Bloom) em 24 horas, entre os dias 15 e 16 de junho de 1904. Em  Dublin, os fãs da obra refazem o percurso dos personagens Stephen Dedalus e Leopold Bloom pelas ruas da cidade conforme descritas por Joyce.
A propósito, Who Goes with Fergus? Quem vai com Fergus? De W B Yeats, publicado pela primeira vez em 1892, é a canção que assombra Stephen Dedalus, no personagem autobiográfico de James Joyce. Stephen canta para sua mãe enquanto ela está morrendo e seu fantasma retorna para ameaçá-lo com esta musica. Este era uma das letras de musica favoritas de Joyce, para o qual ele criou um ambiente musical seu.
No Brasil, o Bloomsday é comemorado desde 1994 na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul e aqui em minha cidade, Campinas S.Paulo, também é comemorado, conforme o jornal local anuncia.
Dentro da idéia de “ver e enxergar”, menciono (extraindo da Wikipedia) que este livro, Ulysses, consiste em dezoito capítulos, cada um cobrindo aproximadamente uma hora do dia, começando por volta das 8 da manhã e terminando em algum ponto após 2 da madrugada seguinte. Cada um dos dezoito capítulos emprega seu próprio estilo literário. Cada um deles também se refere a um episódio específico da Odisséia de Homero e tem associado a si uma cor, arte ou ciência e órgãos do corpo humano. Esta combinação de escrita caleidoscópica com uma estrutura extremamente formal e esquemática é uma das maiores contribuições do livro para o desenvolvimento da literatura modernista do século XX. Outras são uso da mitologia clássica como a estrutura para a construção do livro, com foco quase obsessivo nos detalhes exteriores, sendo que muito da ação relevante ocorre dentro das mentes dos personagens. Joyce reconhecia as dificuldades, pois além de auxiliar na anotação que existe sobre seus livros, aceitava que tinha supersistematizado o livro e talvez devesse esclarecer as  correspondências míticas indicando-as nos capítulos, que é a primeira lição de casa de quem quer se aventurar a ler o livro, em qualquer idioma.

Sobre a publicação de Ulysses em 1922

A publicação de Ulysses coincide com a do poema The Waste Land, de T.S.Eliot.
A primeira publicação de Ulysses foi feita por Sylvia Beach, ela também uma americana expatriada de Nova Jersey que fundou a livraria e editora Shakeaspeare and Company, em 1919, no no. 7 da Rue Dupuytren, Paris.
Esta livraria funcionava como uma biblioteca e uma livraria. Sylvia Beach mudou-se para um local maior no no. 12 da Rue de l’Odéon em 1921 onde ficou até 1941. Neste período esta livraria era considerada o centro da cultura literária americana e do modernismo em Paris. Escritores e artistas da Geração Perdida mencionados se reuniam lá por longos períodos.
Sylvia Beach tinha bom gosto e os livros eram de boa qualidade e tudo isto foi mencionado no livro de Hemingway Paris é uma Festa (Moveable Feast).
Woody Allen não refilma esta livraria, como se poderia supor, mas o fim do filme mostra o personagem na frente da atual Shakeaspeare and Company.
A livraria fechou em 41 durante ocupação nazista, por desentendimento de Sylvia Beach com um oficial alemão sobre a venda do ultimo volume de Finnegans Wake, que ela lhe negou e nunca mais reabriu neste endereço.
Em 1951 outra livraria para livros em Inglês abriu na “Margem Esquerda”, do Rio Sena, pelo americano George Whitman, com o nome de Le Mistral, nos moldes da Shakeaspeare and Company e servia como ponto focal da cultura literária do lado Boêmio.
Quando Sylvia Beach morreu, o nome da livraria mudou para Shakeaspeare and Company e nos anos 50 serviu de base para escritores da Beat Generation, como Alen Ginsberg, Gregory Corso e William S.Burroughs.
Embora a livraria seja no dia a dia tocada pela filha de Whitman, ele gosta de dar um tom surrealista com suas idéias de dar abrigo a jovens talentos nos moldes de um albergue tipo YMCA, sendo que ele costuma afirmar que a livraria é “uma utopia socialista disfarçada de livraria”.
A Shakeaspeare and Company esta localizada no no. 37 da Rue de La Bûcherie, perto da Place St. Michel, de fronte ao Sena da Notre Dame e a Ile de la Cite. No local onde ela está existiu um monastério no século 16.
Com cerca de 13 leitos, Whitman afirma que cerca de 40000 pessoas já dormiram lá e existe uma rotina que parece um culto, com o chá de Domingo, leituras de poesias e encontros de escritores.
Para obter leito e comida, tem que trabalhar na livraria e foi produzido um documentário que se pode ver na Internet:
Em 2005, o Sundance Channel foi colocou no ar  Portrait of a Bookstore as an Old Manum documentário de 52 minutos que homenageia a mais famosa livraria independente de Paris,  Shakespeare and Company. (Não está mais disponivel, veja o clip acima e meu comentário abaixo). Sylvia Beach abriu uma livraria com esse nome em 1918, e logo se tornou uma casa para artistas da “Geração Perdida” (Hemingway, Pound, Fitzgerald, Stein, etc.) e também publicou a célebre obra de James Joyce, Ulysses, em 1922. A loja eventualmente fechou durante a ocupação nazista de Paris. No entanto, uma boa década depois, um excêntrico americano chamado George Whitman estabeleceu outra livraria em língua inglesa na margem esquerda e a rebatizou com o nome Shakespeare and Company. A loja de Whitman deu refúgio aos escritores Beat – Allen Ginsberg, William S. Burroughs e os demais. E é essa encarnação da lendária livraria que o documentário explora. VAle a pena ver e não deixe de assistir aos últimos cinco minutos – a menos que você já saiba como cortar o cabelo com fogo…
Vi o documentário e entendi uns 75%, e acho difícil sem letreiro pelo menos em Inglês, pois não se entende o que falam, mas a impressão, para uma pessoa velha como eu, embora aprecie a idéia do que vai ali, provoca profundo desconforto.
A publicação de Ulysses  e a relação com a Lost Generation e os Beatniks, são os  eventos geradores do impacto que o lugar tem e os artistas da geração perdida citados, porém tenho dúvidas que tenham conseguido viver ali, pois não consigo acreditar que alguém que consiga enxergar algo mais sobre a existência não queira ter dela um mínimo de condição para viver o dia a dia, coisa que me pareceu impossível para o lugar. Talvez Henry Miller tenha vivido assim não lá, nesta livraria, mas em Paris, em algum lugar miserável, e é curiosamente descartado desta lista “nobre” de geração perdida, talvez porque fosse legitimamente o único verdadeiramente perdido… Volto a ele na conclusão.

Semana de Arte Moderna em 1922, no Brasil

Nas pinceladas que dei como pano de fundo para minhas conclusões, acho a mais difícil a sobre a semana de arte moderna de 22, no Brasil, talvez por ser brasileiro e estar próximo dos efeitos dela. Volto à afirmação de Borges que já citei:

“Desvario laborioso e pobre o de compor livros extensos; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

Neste espírito, a literatura brasileira pode ser vista num lance através da seguinte figura:
Que me perdoem Jose de Alencar, Machado de Assis e outros importantes autores, mas para o foco de nossa discussão, começamos a ter lugar a partir da Semana da Arte Moderna.
Devido a problemas de custo, ausência de equipamentos, poder aquisitivo dos leitores, embora tenho certeza que houveram autores de grande valor, não conseguimos montar um time como o americano, junto dos quais eu colocaria o time brasileiro acima, e sem querer excluir outros importantes, F.Scott  Fitzgerald, W.Faulkner, Ernest Hemingway e John Steinbeck, são os grandes expoentes, porem, como os brasileiros, transpiravam um academicismo que, sem tirar-lhes o mérito, não lhes deu originalidade.
Os americanos não tiveram um James Joyce ou uma semana da arte moderna, que a meu ver tem o poder de demarcar o inicio de algo novo e original. Creio que isto para os americanos isto ficou a cargo de Tenessee Williams e, principalmente Arthur Miller, a meu ver o mais marcante de todos os autores modernos americanos. Henry Miller é hors concours, mas é considerado um pouco maldito.
A Street car named Desire, é um marco imbativel na análise ou descrição do embate entre o sul aristocrático e decadente e o norte industrializado e afluente.
A Morte do Caixeiro Viajante, The Death of a Salesman e The Crucible, dispensam comentários e  desnudam a “civilização” americana de forma inexoravel.
Erico Veríssimo analisa o Sul e o pano de fundo de nossa cultura (ou sociedade?…) e desta importante personalidade que foi Getulio Vargas, no seu O Tempo e o Vento. Jorge Amado mete a colher na ditadura Vargas,  com seu Subterrâneos da Liberade, apaixonou-se pelo comunismo, ficou casado mas separado depois de passar um tempo lá deportado por Vargas e entender o que o comunismo é realmente e partiu para uma literatura picaresca que é uma crônica dos bordéis de luxo do estado mais marcante do Brasil em termos de originalidade que é a Bahia. Quem realmente contou a historia do nordeste e da ditadura foi Graciliano Ramos, com seu Vidas Secas, que foi nosso Vinhas da Ira (Grapes of Wrath) e reconhecido pela fundação Faulkner como talvez o mais representativo de nossa literatura.
Steinbeck ganhou o Pullitzer e o Nobel e ninguém por aqui ganhou nem um nem outro…(ou nenhum…) nem poderiam, mas não resisti ao trocadilho para comentar uma questão que confunde o valor dos autores em Espanhol e Português, que é o Premio Nobel.

Como relacionar a Geração Perdida, James Joyce, Ulysses, Tenessee Williams, Arthur Miller,Henry Miller, nossa literatura, a literatura americana e a latino americana com o tema central deste trabalho e… concluir alguma coisa?

A geração perdida produziu uma literatura original e moderna no sentido do desligamento com o classicismo especialmente o imposto pelo padrão francês, que dominou o século XIX e influenciou a “inteligentsia” das Américas, quiçá da cultura ocidental.
O valor da literatura que se fez em Português e em espanhol e que se revelaria ao mundo após o corte de cordão umbilical anunciado em 1922,  seria um encontro consigo mesma e a criação do estilo que veio a ser conhecido como Realismo Fantástico em espanhol e não teve nome no Brasil. No Brasil tivemos Macunaíma, que para entender mesmo do que se trata, só sendo brasileiro. Na Argentina, influindo no resto da América Latina, a obra de Borges deu os contornos que foram seguidos pelos autores que se notabilizaram neste estilo e que inclusive ganharam Prêmios Nobel e foram traduzidos pelo mundo afora.
Coloquemos tudo isto na balança de um lado e Borges do outro e temos o valor dele.
Singlehandedly,  sozinho, como dizem os americanos enfrentou todo este vasto contingente, sem Ulysses, sem Geração Perdida, sem Semana da Arte Moderna, sem mais nada. Se a Argentina tem relativamente poucos autores, porem tem muitos leitores, dado o alto nível cultural do seu povo.
Gabriel Garcia Márquez com seu Cem anos de solidão  foi quem jogou no cenário mundial a literatura latino americana e ele mesmo reconhece o valor primordial de Borges, o primeiro a apontar o caminho e que, sem ser um Joyce, demanda uma certa familiarização para saborear sua obra e por isto parece ser secundário, mas é básico.
A Globalização, a facilidade de transito entre todos estes locais, a Internet, faz com que pouco a pouco vá caindo o véu e, usando-se os critérios sugerido por McLuhan de ir anotando explicando tudo isto, veremos que Buenos Aires não se parece com Paris apenas arquitetonicamente, mas rigorosamente tem o mesmo papel de berço ou de moldura para o reconhecimento a nível mundial de como se vive por aqui.
E, para concluir, acho incrível que não existam ambientes similares aos de Paris com gente criando arte em todas suas formas, como aconteceu em Paris nos anos 20, pois o fator básico da presença dos artistas em Paris no passado é algo que ocorre hoje em Buenos Aires: os preços são accessíveis…
Da Semana de 22 no Brasil, com efeito globalizado, tivemos apenas o concretismo, pois o Brasil, muito bem refletido em Macunaíma, não é para principiantes…
Nossa forma de aparecer foi com a musica, especialmente a Bossa Nova e para mim, Vinicius de Morais é o que seria o equivalente de Borges, ou Hemingway, ou… Joyce… e é o mais Macunaima de todos os Macunaimas que este pais já produziu…
Mas já viajei demais nesta mayonaise e faria melhor se voltasse aos bancos escolares e estudasse tudo isto mais detidamente…
Na verdade este trabalho todo é sobre sentimento que uma cidade provoca e para isto, vejamos

O que dizem quem anda por ai (a reportagem do NY Times sobre cidades)

Onde Hemingway iria?

 

 

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