Borges e Coppola Anos 30

Jorge Luis Borges e Horacio Coppola

Borges apresenta para os argentinos uma situação similar à do concretismo para os brasileiros: O concretismo é o único movimento literário brasileiro que conseguiu repercussão internacional e Borges é o escritor argentino que conseguiu maior repercussão internacional.
Porém ambos, em suas próprias casas, não tem uma aclamação unânime que lhes reconheça seu valor.
Borges, para mim é obvio porque não ganhou premio Nobel e porque a Argentina tem uma certa dificuldade de reconhecer-lhe o valor e faltou lobby do governo, pois:
Foi contra o comunismo, o peronismo, era reacionário, não produziu uma obra literária convencional, com começo meio e fim, no fundo era um critico enciclopedista que escreveu alguns ensaios, contos e poesias, não tinha medo de denunciar o mau caráter de Pablo Neruda, ou de quem quer que fosse, incluindo (imagine!) Kafka, que alias depois mudou de idéia, excluiu o sexo de seus escritos num pais tremendamente sensual, desprezava os intelectuais pobres, enfim era politicamente incorreto.
Mas profundamente genial para um tipo de Weltanschauung[1], se é que cabe a expressão, que insere o individuo no mundo pelo surrealismo e pelo realismo mágico, que é a única coisa que a nível da cultura universal pesa efetivamente como contribuição da América Latina. Alias das Américas, pois os EUA, por exemplo, não conseguiram algo equivalente e sua inteligentsia notoriamente ia a Paris para criar e a infra-estrutura da cultura francesa é aparente até na cor da bandeira americana.
Para este tipo de trabalho que pretende ser esta ilustração de Buenos Aires com imagens literárias de Borges, o que poderia ser uma falha na sua obra é uma tremenda facilidade, pois a maior obra literária envolvendo Borges é sobre ele e não dele, que é sua biografia pelo critico uruguaio Emir Rodríguez Monegal e a cronologia de suas produções indicam contos, poesias, ensaios, nenhum romance, ou coisa pesada difícil de absorver intelectualmente.
Outra fonte para quem deseja conhecer Borges, é a biografia de James Woodall, que foi noutra direção e deu uma face humana a Borges. É muito citado que este critico fez poucas citações da obra de Borges, e mencionou apenas a confissão feita no poema O Remordimento: “Cometi o pior dos pecados / que um homem pode cometer. Não fui / feliz”.
Jose Neumani, no Jornal da Poesia, revela que Borges lhe disse,  “A imprensa”, disse-me, “é uma invenção maligna. Antes, nos tempos dos manuscritos, os escritores eram mais seletivos e seletos. Só vinham à luz textos iluminados. Depois da imprensa, ficou fácil demais publicar um livro”.
Eu não sabia disto, descobri por causa deste projeto, mas compartilho inteiramente desta idéia, que inclusive me sanciona a auto critica de me sentir capaz de fazê-lo, pois isto aqui será, antes de mais nada, um manuscrito com iluminuras e, embora seja fácil publicar um livro, como seria o caso, espero que ocorra porque pareça um manuscrito iluminado pela genialidade de Borges e de Horacio Coppola e não fruto desta facilidade.

[1] Moldura ou estrutura de crenças e idéias pelas quais um individuo ou um grupo social interpreta o mundo e interage com ele

Critério de seleção sobre Borges:

Cronológico e Por Afinidade

Dividido em Poesias, Contos, Ensaios, Não classificados e Contos.

Poesias

  • Fervor de Buenos Aires (1923)
  • Luna de enfrente (1925)
  • Cuaderno San Martín (1929)
  • Poemas (1923-1943)

Ensaios

  • Inquisiciones (1925)
  • El tamaño de mi esperanza (1926)
  • El idioma de los argentinos (1928)
  • Evaristo Carriego (1930)
  • Discusión (1932)
  • Historia de la eternidad (1936)

Não-classificados

  • Historia universal de la infamia (1935)

Por Afinidade

A literatura de Borges como um todo apresenta um problema para quem se aproxima dela, especialmente no nosso caso, que é relacioná-la com Buenos Aires: tem dimensões próprias através de um realismo mágico e de um surrealismo imanente.
Porem,  como o próprio Borges o disse, tudo que ele iria fazer o fez na sua primeira publicação Fervor de Buenos Aires, em 1923 e ali contem o suficiente para nossas finalidades. Borges surpreende quando se toma contacto com sua obra.
Seus labirintos, espelhos, sonhos, ilusões, seu fascínio por metáforas, especialmente sobre a mente humana, são o que mais transparecem. Ele vale pela forma como pensa e não pelo estilo, que até existe, mas são as idéias que ele tem que dão a ele o valor que tem. Suas historias talvez sejam o que mais causa impacto em sua obra e aproveito uma breve indicação da natureza delas com uma breve descrição de algumas, para decidir como podem entrar no nosso projeto de definir e ilustrar Buenos Aires:
(copio, transcrevo, adapto, da Internet, Wikipedia, etc)
Não consigo deixar de observar, pensando já em possíveis criticas à forma como enfrento o problema que no prólogo ao livro Ficções (1944), Jorge Luis Borges escreveu:

“Desvario laborioso e pobre o de compor livros extensos; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

Que coincide com o que penso e sinto quando vejo extensos livros…

A Biblioteca de Babel

Borges imagina uma biblioteca infinita que abriga todos os livros possíveis, mas a maioria destes contêm seqüências aleatórias de letras. Em algum lugar, ele explica, deve haver um livro que é o catálogo de todos estes, um livro que contém a chave para todos os outros. A pessoa que possui este livro é análoga a um deus. Os livros também podem não fazer sentido ou o fazem em alguma língua já morta e o narrador, um bibliotecário, supõe que a biblioteca contem todas as possibilidades da realidade.
É um conto metafísico, no sentido de que a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos a espera de quem os decifre.
Poderia ser uma metáfora também sobre a sociedade dominada pela informação, um Big Brother meio mágico, menos impositivo que o de George Orwell em 1984.
Editou  esta historia em 1944 no livro Ficciones (Ficções).

O jardim dos caminhos que se bifurcam

Uma história como se fosse uma crônica policial, na qual cada evento que pode acontecer acontece. É em parte história de espionagem e investigação e em parte metafísica sobre a natureza das múltiplas realidades que podemos estar inseridos.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

É um conto sobre a um mundo imaginário criado por uma sociedade secreta de filósofos que lentamente começa a tomar o nosso mundo real.

Funes, o Memorioso

Conta a historia de homem com uma memória totalmente infalível. Borges imagina o que seria estar ciente e lembrar cada detalhe da vida de uma pessoa. Curioso que ainda na década de 40,  mais precisamente 1944, Borges tenha imaginado algo que ocorre no século XX!, que é a Internet, e que se assemelha a Funes. Se pensarmos a Internet como uma infinita memória, onde se coloca de tudo, sem filtrar nada; sem seleção da qualidade da informação ou discriminação de sua origem, as conseqüências desta ideia seriam as mesmas que o conto de Borges provoca. Embora, por formação profissional (trabalhei com computadores Main Frame minha vida toda), tenho a dizer a quem estiver lendo que a Internet é toda filtrada… talvez da mesma forma como a memória de Funes o é pelo autor Borges e seria uma excelente metáfora para entender isto…

Pierre Menard, autor de D.Quixote

Borges imagina um autor do século 20 re-escrevendo Don Quixote palavra por palavra. Este livro, Borges argumenta, é superior ao original de Cervantes, apesar do fato de que eles são idênticos. “O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico”.

Critério de seleção sobre Coppola

Todas as coisas de arte provenientes das Américas tem no fundo uma preocupação com “ser moderno”, no sentido da modernidade que se instalou no começo do século XX e ser original, e não copia do principal continente que nos influencia, a Europa.
Coppola consegue as duas coisas.
A fotografia como forma de arte, foi a penúltima a chegar, creio que o cinema foi a ultima.
Coppola foi, mais que ninguém a pessoa que fez a fotografia Argentina, quiçá latino americana, se é que existe isto, atingir este status.
Jorge Schwartz faz um excelente relato sobre não apenas isto, mas toda a trajetória de Coppola, no texto “Horacio Coppola: uma metrópole em branco e preto”, da publicação que o Instituto Moreira Salles patrocinou e que é a única publicação sobre o trabalho de Coppola no Brasil: “Horacio Coppola: Visões de Buenos Aires”.
Da mesma forma que Buenos Aires é o melhor exemplo da inspiração produzida por Paris, Coppola, na Argentina,  é a melhor inspiração produzida pela Bauhaus alemã, que consolidou a tendência inata dele pelo geométrico apesar da sua breve passagem, com o efeito importantíssimo de ter conhecido a esposa Grete Stern,.
Para o momento, vou utilizar apenas das imagens desta publicação e espero conseguir ter acesso aos trabalhos dele que tenho certeza conterão imagens perfeitas para a obra de Borges.
Não consigo deixar de observar que sua esposa, Grete Stern, que produziu montagens fotográficas criando imagens de sonhos, seria uma excelente candidata para muitos dos contos de Borges.

Por ultimo, mas não menos importante, Coppola produziu um trabalho fotográfico sobre as obras do Aleijadinho que estão no acerto do Instituto Moreira Salles, que foi uma sorte e um privilegio para nós brasileiros.

Inicialmente, quase desisti de lustrar Borges com Horacio Coppola, pela evidente discrepância que existe entre a “geometria” dele com a nebulosidade de Borges, porém, como muito bem o disse Jorge Schwartz, o estilo expressionista usado por Fritz Lang no clássico Metropolis, é o mesmo que Coppola usa.

Voltei a rever Metropolis e a impressão que o filme causa é a mesma que os contos de Borges… surpreendente… difícil de colocar em palavras… creio que a abstração do tempo do e do espaço conseguida por Fritz Lang é a mesma que Borges consegue e, embora, Coppola não sugira abstração do tempo e do espaço, o tipo de “congelamento” de momento que ele consegue, é um libelo no sentido de que não existe presente, passado ou futuro, existe apenas aquilo que vemos e sentimos ao ver… tanto dentro como fora de nós…

Decidi manter a idéia e explorá-la, apesar a aparente contradição…

Estilos de Coppola e Borges

A ilustração de Coppola para  os textos de Borges, ou os textos de Borges para explicação das fotos de Coppola apresentam esta dificuldade quase intransponível, que discuto mais um pouco:
Borges explora o tempo, o espaço, o infinito, porem o faz de forma sombria, misteriosa, indefinida,  nebulosa, quase esotérica… talvez, gótica…
Coppola é linear, claro, definido, geométrico, linear, talvez cubo futurista.
Segundo Schwartz, Coppola declarou que “A analise que Lê Corbusier fez de Buenos Aires foi decisiva para minha carreira”, na sua passagem por Montevidéu, Rio de Janeiro e S.Paulo, iniciando por Buenos Aires.
Não sei se o Lucio Costa ou o Niemeyer concordariam, mas creio que a idéia de Le  Corbusier não se materializou em nenhuma das duas capitais, mas sim em Brasília, Metropolis perfeita… porque se tivesse ocorrido, eu não estaria aqui escrevendo este trabalho…
A questão do estilo de Borges e Coppola se pode observar bem nesta combinação de foto e texto:

carnicería

Más vil que un lupanar,
la carnicería infama la calle.
Sobre el dintel
una ciega cabeza de vaca
preside el aquelarre
de carne charra y mármoles finales
con la remota majestad de un ídolo.

açougue

Mais vil que um lupanar,
o açougue rubrica como urna afronta a rua. Sobre o dintel
urna cega cabeça de vaca
preside o sabá
de carne charra e mármores finais
Com a remota majestade de um ídolo.

Não espero concordância de ninguém, espero apenas ter o direito a esta licença poética, que afinal, reflete um sentimento imaginário que pode ou não necessariamente estar apoiado na realidade, que afinal, como muito bem se conclui da obra de Borges, não existe…
Quando a divergência for insuperável ou insuportável, menciono no texto…

açougue

Outro exemplo onde o estilo é evidententemente diferente:

la recoleta

Compenetrados de caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramo-nos e baixamos a voz
entre as lentas fileiras de jazigos,
cuja retórica de sombra e mármore
promete ou prefigura a desejável
dignidade de ter morrido.
São belos os sepulcros,
o latim nu e as datas fatais, definitivas,
a conjunção do mármore e da flor
e as pracinhas coro frescor de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única.
Confundimos essa paz coro a morte
e pensamos almejar nosso fim
e almejamos o sono e a indiferença.
Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera,
somente a vida existe.
O espaço e o tempo silo formas suas,
silo instrumentos mágicos da alma,
e quando esta se apagar
junto irão se apagando o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
caduca o simulacro dos espelhos~
que a tarde já foi apagando.
Sombra benéfica das árvores,
vento com pássaros que ondula sobre os ramos, alma que se dispersa em outras almas,
seria um milagre se um dia deixassem de ser, milagre incompreensível,
embora sua imaginária repetição
infame coro horror os nossos dias.
Nestas coisas pensei em la Recoleta,
nesse lugar de minhas cinzas.

la recoleta

Convencidos de caducidad
por tantas nobles certidumbres del polvo,
nos demoramos y bajamos la voz
entre las lentas filas de panteones,
uya retórica de sombra y de mármol
promete o prefigura la deseable
dignidad de haber muerto.
Bellos son los sepulcros,
el desnudo latín y las trabadas fechas fatales,
la conjunción del mármol y de la flor
y las plazuelas con frescura de patio
y los muchos ayeres de la historia
hoy detenida y única.
Equivocamos esa paz con la muerte
y creemos anhelar nuestro fin
y anhelamos el sueño y la indiferencia.
Vibrante en las espadas y en la pasión
y dormida en la hiedra,
sólo la vida existe.
El espacio y el tiempo son formas suyas,
son instrumentos mágicos del alma,
y cuando ésta se apague,
se apagarán con ella el espacio, el tiempo y la muerte,
como al cesar la luz
caduca el simulacro de los espejos
que ya la tarde fue apagando.
Sombra benigna de los árboles,
viento con pájaros que sobre las ramas ondea, alma que se dispersa en otras almas, .
fuera un milagro que alguna vez dejaran de ser, milagro incomprensible,
aunque su imaginaria repetición
infame con horror nuestros días.
Estas cosas pensé en la Recoleta,
en el lugar de mi ceniza.

La Recoleta, estilo Coppola

La Recoleta

La Recoleta 01

Estilo convergente

Bar estilo convergente

Esta foto deste Café é tão poderosa que poderia ilustrar uma grande quantidade de textos que Borges escreveu… Selecionei um trecho de uma poesia que esta emoldurada noutro contexto, mas dentro existem versos que se encaixam maravilhosamente aqui:

A noite cíclica

… Uma esquina remota
que ode estar no Norte, no Sul ou no Oeste,
mas em que vejo sempre um muro azul-celeste,
uma figueira sóbria e uma calçada rota.
Ai esta Buenos Aires. O temo, que a ouros homens
Traz ouro ou traz amor, em mim apenas funda
Esta rosa amortecida, esta vã barafunda
De ruas que repetem os pretéritos nomes.

La noche cíclica

…Una esquina remota
que puede ser Del Norte, Del Sur o Del Oeste,
pero que tiene siempre una tapia celeste,
una higuera sombría y una vereda rota.
Ahí está Buenos Aires. El tiempo que a los hombres
Trae el amor o el oro, a mí apenas me deja
Esta rosa apagada, esta vana madeja
De calles que repiten los pretéritos nombres.

as ruas

As ruas de Buenos Aires
já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas,
incômodas de gente e de bulício,
mas as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de tão usuais,
enternecidas de penumbra e de ocaso
e aquelas mais ao longe
carentes de árvores piedosas
onde austeras casinhas apenas se aventuram,
abrumadas por imortais distâncias,
a perder-se na profunda visão
de céu e de lhanura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas singulares as povoam,
únicas perante Deus e no tempo
e sem dúvida preciosas.
A Oeste, ao Norte e ao Sul
desdobraram-se – e também são a pátria – as ruas;
tomara que nos versos que traço
estejam essas bandeiras.

las calles

Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y de ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y de llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado - y son también la patria -las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas.

calles

 

 

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