Onde Hemingway iria?

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J JoffeLondres, a cidade Global / Atualizado em 14 de Julho de 2011, 07:44 PM

Josef Joffe é editor do Die Zeit, em Hamburgo, uma antiga rival de Berlim, bem como Senior Fellow do Instituto Freeman-Spogli de Estudos Internacionais e Fellow Abramowitz na Instituição Hoover, ambos da Universidade de Stanford. Assim, seu discurso na realidade é para Silicon Valley.

Onde Hemingway iria?

Em cada época, uma cidade é designada como um imã de criatividade e energia. Qual cidade é o centro dinâmico na Europa agora?

Londres

Hemingway provavelmente ficaria em Key West ou em Ketchum, onde ele tirou sua  própria vida – a sua depressão aguçada pela convicção de que nenhum lugar na Europa foi mais interessante que  Idaho.
O que faz uma cidade ser boa? É sempre a mesma combinação de riqueza e poder, o dinamismo e a liberdade que atrai talento e ambição de todo o mundo. Isto cria uma massa crítica de pessoas que criam, inventam e “quebram o molde”.
Por isso mesmo, Nova York, Los Angeles e o Vale do Silício (que é realmente uma cidade de 50 milhas de comprimento) compartilham o Primeiro Prêmio. Amsterdam desempenhava esse papel no século 17, Paris, no século 18, e Berlim, durante sua época de ouro na unificação da Alemanha em 1871 até a ascensão de Hitler em 1933.
Hoje, Amsterdam, Paris e Roma são cidades simplesmente lindas e altamente habitáveis ​​(se você tiver o dinheiro), mas não ímãs. Nem é Berlim, embora ela atraia os jovens de toda a Alemanha e Europa, porque os alugueis  são baratos. Mas os alugueis  são baratos  porque a economia da cidade não gera riqueza. Não tem nenhum banco ou indústria para falar, e cerca de dois quintos da população vivem sustentados pelo governo
Então o que resta na Europa? Por meio de eliminação, é Londres – a cidade global da Europa, da mesma forma que Nova York, Los Angeles e Mountain View são cidades globais. Londres tem o dinheiro (que vem principalmente de serviços financeiros). É uma cidade de uma miríade de nacionalidades.  Ela o deixa sozinho ao mesmo tempo em que oferece mil pontos de distração. Embora não mais a capital de um império, Londres atrai os melhores e mais brilhantes de todo o mundo – que destaca outra situação crítica: a linguagem. Quando Paris era a rainha no século 18 e 19, cada pessoa educada na Europa falava francês, um traço que durou até o século 20. Hoje, todo mundo fala Inglês, ou pelo menos Inglês ruim, que é a linguagem com o mais rápido crescimento no mundo. Mas quem agora tem um domínio do alemão, para não dizer do holandês ou italiano? Se o resto do mundo for para  o chinês como foi  para o Inglês, Shanghai pode se juntar ao grupo. Mas os 3.000 signos do idioma chinês  são um pouco mais difíceis de dominar do que as 26 letras do alfabeto Inglês.

Foram feitos 117 comentários, das quais selecionei:

mickeyrad

Centerville Iowa  July 13th, 2011 9:21 pm

Por favor, não vamos esquecer, se estamos falando de Hemingway e os artistas da década de 1920, o dinheiro era muito importante. Eles precisavam de uma cidade em que fosse barato para viver bem. Isso, é claro, exclui Londres de hoje, Paris, Berlim, Amsterdam, Bruxelas e Bruges. Nenhum dos escritores aqui, aparentemente, tem alguma idéia do que jovens artistas procuram, nesta geração ou de qualquer outra; pedindo às pessoas que podem se dar ao luxo de viver em qualquer dessas cidades é o mesmo que pedir um vegetariano onde conseguir um bom bife por um bom preço – você está perguntando a pessoa errada. Hemingway e os artistas da década de 1920 escolheram Paris porque os preços estavam no porão e havia ainda uma boa vida de ser vivida. Na Europa de hoje, as únicas cidades que Hemingway e os artistas da década de 1920 poderiam se dar ao luxo de viver bem, mas barato, seria nas Balcãs e na Europa Oriental. Talvez Zagreb, talvez Belgrado, Bucareste ou Sofia talvez ou Varsóvia ou Cracóvia. Nenhuma das cidades na Europa Ocidental ou Norte da Europa se qualificariam.

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Patty Thibeault Laconia NH

July 13th, 2011 8:03 pm

A Europa está fora de moda. Hemmingway iria para a China, Vietnã ou Camboja

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Ken Gedan  Florida

July 13th, 2011 9:44 pm

“É sempre a mesma combinação de riqueza e poder, o dinamismo e a liberdade que atrai talento e ambição de todo o mundo.” Risos.
Então, quem cria riqueza e poder atrai  o “talento”. Tem sido minha experiência que a riqueza e o poder atrai os preguiçosos.

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Rene Pedraza  Potomac, MD

July 14th, 2011 7:17 am

Seu pontapé inicial é ridículo. Estudei Hemingway durante trinta anos. Hem não teria sequer usado um termo como “mais estilosa” e a única razão que ele amava Idaho, quando sua “depressão aguçada pela sua convicção …” era que ele estava exausto por ter vivido uma vida mais intensa e variada. Ele precisava de descanso e repouso e beleza de uma lacônica Idaho.Ele não emitia opiniões sentado num sofá. “Riqueza e Poder” “não eram duas coisas que o levaram para Paris. Sugiro que leia” Paris é uma festa “antes de bater as suas bochechas sem sentido, no futuro, antes de opinar sobre nada de Hemingway. Esta peça é toda sobre o lugar.

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Cyriac The Bronx

July 14th, 2011 2:02 am

Por favor, atualizar e revisar – Hemingway não iria para a Europa

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Popseal Slidell, La.

July 14th, 2011 10:06 am

Algumas cidades são mais interessantes do que outras. O problema que eu encontrei em todos os lugares é que quando eu chego, ainda sou eu. Criatividade não é geográfico, é uma questão de alma.

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Winthrop  on the flats of e’side Buffalo, NY

July 14th, 2011 4:24 am

Locatário …. pessoas interessantes, cultura de beber, rendas baixas … Petrogrado, Praga, Thessolonica, Lyon, Marseille

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Yeop Azman Zagreb, Croatia

July 14th, 2011 5:13 am

Todo mundo parece pensar só na Europa Ocidental. Porque não cidades de inspiração no lado Central e Oriental do continente? Cracóvia, Kiev, São Petersburgo, Praga, ou até Istambul e Ankara? Concordo que há uma falta de motivação em processos de pensamento mentais dos europeus em comparação com os EUA, mas eu acho que é um declínio geral devido à falta de interesse da nova geração em interagir socialmente devido à mídia. Você acha que eu posso falar uma resposta a um tópico como este em um bar aqui em Zagreb, na Croácia? Eu não penso assim …

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Bruce Hungria
14 de julho de 2011 06:39 am

Penso que Ernest Hemingway, que nasceu e foi criado onde eu nasci e cresci, poderia ir a Budapeste. É tão bonito tem tanta vida e está se tornando um lugar onde o Inglês é falado mais a cada dia. E é 1 / 3 do preço de Londres. E é o melhor mantido semi secredo na Europa.

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E.L. New York, N.Y.

July 14th, 2011 10:21 am

Berlim continua sendo uma das cidades mais cheia de promessas no mundo. Hemingway poderia saborear a atmosfera sempre. Os museus por si só não podem ser batidos, desde o Museu Judaico projetado por Daniel Libeskind, até o Pergamon. É uma cidade onde você pode caminhar por quilômetros apenas olhando para a impressionante arquitetura, um prédio após o outro, incluindo a estação de trens. Os prédios do governo em vidro são uma celebração da transparência. O rio fica agitado de  atividades, outro lugar para caminhar por quilômetros. A rivalidade entre Berlim Oriental e Ocidental é suficiente para fascinar qualquer cínico, com duas casas de ópera, a de Berlim Oriental, mais acessível. Existem diferentes sinais de semáforos para”andar” em cruzamentos movimentados para leste e oeste, camisetas especiais para celebrar os de Berlim Oriental. Palácios dos subúrbios, tais como Charlottenburg rivalizam Versailles, e se você estiver realmente entediado (impossível), você pode pesquisar em edifícios mais antigos buracos de bala dos últimos dias da guerra. A maioria dos alemães fala Inglês, por isso a linguagem não é um problema. Os jardins e zoo (imagine urso Panda) são durante todo o ano deliciosos. Os residentes se vestem com capricho para o jantar na noite de sábado, um costume que só pode tornar o pais simpático. O norte-americano mais liberal pode estar chocado com a nudez total de homens e mulheres  na sauna!
Eu tinha certeza que eu nunca visitaria a Alemanha – foi a última na minha lista – mas o meu marido tinha uma viagem de negócios e eu fui junto – o que é um deleite. Pensar que eu quase perdi isto.

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À guisa de conclusão: E as outras cidades e experiências deste tipo?

Afinal em que termos?

Um dos aspectos mais marcantes da globalização é a possibilidade que dá aos seres humanos de irem a lugares do planeta. Embora isto não ocorra para todos, pelo menos é possível para os que assim o desejem, alem de, claro, os que o fazem por razões profissionais.
Esta experiência que tive de Buenos Aires é típica, e as outras que tive com outras cidades também.
Pensei em como poderia colocar em perspectiva isto e me caiu nas mãos uma reportagem publicada pelo NY Times exatamente sobre isto e uma série de cartas dos leitores deram a perspectiva que eu procurava.
Embora este critério padeça do problema que é esta mania de estabelecer um “ranking” ou classificação  e que reflete um aspecto não muito adequado do “american way of life” que é muito discutível, serve para um dos critérios.
Nosso planeta  ficou pequeno, mas ainda é muito grande, talvez infinito, dentro do imaginário das pessoas e uma consideração destas tem que levar em conta o observador e o ponto de fuga da perspectiva, que no nosso caso oscila entre Europa e Estados Unidos e, subitamente…, América Latina…
Não consigo ter outro tipo de consciência ou percepção, pois pertenço e vivo neste mundo, mas digo apenas para informar a razão desta colocação e, se houver algum Roque chinês que o faça centrado em Pequim, ou Beijing e Moscou, ou Moskva, nada tenho contra e apreciaria imensamente conhecer a experiência.

Porque Nova York e Paris?

Creio que embora haja concordância sobre a preferência por estas duas cidades para os fins deste trabalho sobre as razões que Buenos Aires seduz, não é algo que se consiga demonstrar e sempre vai ser questão de opinião.
Mas existem razões.
Paris é óbvio, basta ir lá. Mas não nasceu pronta, e vale ver um pouco como ela chegou onde está no imaginário das pessoas..
Nova York não é tão óbvia e requer um pouco de conjetura.
Não vou elaborar outras cidades que geram encanto e sedução, mas irão aparecer nos comentários das reportagens do NY Times e nos meus.
Sinto que Buenos Aires tem que pertencer a este elenco…

Paris

Eu mencionei na introdução que existem cidades “literárias”, como claramente é o caso de Paris e este é o enfoque que vou enfatizar do ponto de vista da “Geração Perdida”, tendo em vista que o enfoque de Borges e Coppola se enquadra na mesma categoria e é a conclusão a que quero chegar.

Lost Generation (Geração Perdida)

Geralmente este é um termo atribuído a Gertrude Stein e que foi popularizado por Ernest Hemingway em seu livro O Sol Também se Levanta e em suas memórias no livro A Moveable Feast. Vejo no site da Livraria Cultura uma sinopse de Moveable Feast, que foi traduzido como Paris é uma Festa:

“ ‘Paris é uma Festa’ revela um Hemingway diferente. Em Paris, aos 22 anos, ele lê, pela primeira vez, clássicos como Tolstói, Dostoievski e Stendhal. Convive com Gertrude Stein, James Joyce, Ezra Pound, F. Scott Fitzgerald, figuras polêmicas e encantadoras para o jovem Hemingway. A cidade e esses ‘companheiros de viagem’ deram-lhe nova dimensão do humano e maior sensibilidade para alcançar os seus dois objetivos primordiais na vida; ser um bom escritor e viver em absoluta fidelidade consigo próprio. Há, em ‘Paris é uma Festa’, momentos de suave melancolia, alternados com outros de cortante, quase selvagem crueldade.”

Faltou mencionar que ele conta sua vida com sua primeira esposa Hadley, da pobreza em que vivia num quarto alugado num bairro pobre que não tinha banheiro e às vezes ele não tinha como pagar uma das refeições do dia. Porem não é bem a miséria que se supõe, pois os Hemingway não abriam mão de ter empregada para cuidar do filho e gastavam suas economias viajando para  algum lugar da Europa.
Os franceses ainda não tinham sido invadidos pelos turistas, especialmente os americanos e conta-se que alguns donos de bares forçavam seus garçons a se barbearem e cortar o cabelo como os americanos, para atraí-los e os tratavam com atenção, interessando-se pelo que faziam. Ainda haviam pescadores no Rio Sena e a vida era boa. Coisas impensáveis hoje em dia. Um dos capítulos do livro começa assim:

 “Quando a primavera chegava, mesmo a falsa primavera, não havia problemas exceto o de onde ser mais feliz. A única coisa que poderia estragar um dia eram as pessoas, e se você pudesse evitar compromissos, cada dia era ilimitado. As pessoas eram sempre as limitadoras da felicidade, com exceção daquelas poucas que eram tão boas quanto a própria primavera.”

Da Geração Perdida, talvez Hemingway seja o mais lido e o mais lembrado no tipo de discussão que estamos fazendo aqui e uma apreciação dele requer um espaço à parte e dou umas pinceladas apenas para nossas finalidades:

Ernest Hemingway

Hemingway é uma figura emblemática e exerce fascínio não só sobre os leitores de língua inglesa, como todos os leitores, creio que até do Oriente.
Ele foi a Paris como jornalista, mal acabara o ginásio, chegando como jornalista do Kansas City Star antes dos 20 anos. Posteriormente iria ser correspondente de guerra na Espanha.
Segundo consta, tentou alistar-se para participar na 1ª guerra mundial, (ele nasceu em 1899, mal tinha 18 anos e quando a 1ª guerra começou, tinha 15) mas não foi aceito por problemas de visão. Acabou participando como motorista de ambulância da Cruz Vermelha.
Antes de ganhar o Premio Pulitzer de 1953, com O Velho e o Mar, e o Nobel de Literatura em 54, transformando-se no escritor de renome que é, foi jornalista, tendo sido correspondente de guerra  do North American Newspper Alliance
Se a década de 20 (roaring twenties, como dizem os americanos), foi uma festa, a de 30 foi marcada pela Grande Depressão. Hemingway, já na Espanha, acabou alistando-se com os rebeldes espanhóis, lutando contra o fascismo, na guerra civil espanhola de 1937 e uma de suas melhores obras, talvez a melhor, Por Quem os Sinos Dobram, de 1940, relata esta experiência.
Hemingway identificou-se com os espanhóis, sendo notória sua paixão por touradas, tendo sido toureiro amador. Isto se refletiria não apenas em Por quem os Sinos Dobram, como já em outra obra famosa sua, O Sol Também se Levanta, de 1926.
Hemingway casou-se quatro vezes e apaixonou-se inúmeras outras vezes.
Aliás, um de seus apaixonamentos foi pela enfermeira Agnes Von Kurowsky, que o inspirou na criação da heroína de Adeus às Armas, em 1929, a inglesa Catherine Barkley, na sua passagem pela Itália.
Ele retornou a Oak Park, EUA, após ter sido atingido por uma bomba na sua experiência de combatente na guerra civil espanhola.
É algo desagradável de mencionar, já que estamos celebrando a vida, mas o tema de suicídio é recorrente na obra de Hemingway. O pai dele suicidara-se em 1929 por problemas de saúde e financeiros e a mãe, que era um tanto quanto neurótica, enviou a ele a pistola que o pai se suicidara gerando nele uma duvida se a mãe estaria sugerindo a ele suicídio ou que apenas guardasse a arma como lembrança.
Culminou que ele aos 61 anos, com problemas de saúde, principalmente depressão e perda de memória, acabou suicidando-se da forma como é notoriamente sabida de disparar um fuzil contra si mesmo, em Ketchum, Idaho, EUA, a 2 de Julho de 1961.
Como experiência aventureira, foi imbatível, um Ulysses moderno, com uma saga muito mais romântica, porem trágica.
Por falar em Ulysses, vou pincelar James Joyce também, mas antes, vejamos:

Gertrude Stein

Faço minhas as palavras da Wikipedia, perfeitas para o que queremos:
Ela nasceu no dia 3 de Fevereiro de 1874 em Pittsburgh, EUA e morreu no dia 27 de Julho de 1946 em Paris, França, tendo sido escritora, poeta e feminista.
Tinha um apreciável círculo de amigos, que ficariam célebres, como Pablo Picasso, Matisse, Georges Braque, Derain, Juan Gris, Cocteau, Apollinaire, Francis Picabia, Ezra Pound, Ernest Hemingway, James Joyce, Nijinski para citar alguns e e provavelmente outros desta época tão criativa em Paris.
Miss Stein era realmente genial e escreveu “Autobiografia de Alice B. Toklas”, livro fundamental da vanguarda dos anos 1910, 20 e 30. Com estilo muito próprio, a narrativa conta como jovens artistas e escritores vindos das mais diversas partes do mundo se encontravam em Paris e abriam novos caminhos para a arte. Picasso vinha da Catalunha, Joyce da Irlanda, ela própria vinha da América, Nijinski era russo, havia vários franceses, como Cocteau, Apollinaire, Matisse. É bom lembrar que, apesar do nome, o livro foi escrito por Miss Stein, tendo como porta-voz Alice B. Toklas, sua companheira durante vinte e cinco anos. Compondo um interessante painel das três primeiras décadas deste século: “Gertrude Stein e o irmão visitavam frequentemente os Matisse que constantemente retribuíam as visitas. De vez em quando Madame Matisse convidava-os para almoçar, o que acontecia principalmente quando recebia alguma lebre de presente. Lebre estufada feita por Madame Matisse à moda de Perpignan era algo fora do comum. Tinha também vinho de primeira, um pouco pesado, mas excelente”. Durante esse tempo Miss Stein e sua companheira Alice viveram no número 27, Rue de Fleurus. Este endereço se tornaria lendário e um importante ponto de encontro desses “gênios”.
Gertrude Stein seria a primeira a pendurar em sua parede pinturas de Juan Gris, Matisse e Picasso. Mais tarde romperia com muitos deles, inclusive com Picasso, por quem manteve grande afeição. Antes porém, posaria noventa e três vezes para que o artista catalão desse por finalizado o seu retrato: “Mas em nada se parece comigo, Pablo” disse ela. “Mas certamente vai parecer ,Gertrude, certamente…” respondeu o pintor. O rompimento dos dois se daria apenas em 1927, por ocasião da morte de Juan Gris. Gertrude acusou Picasso de não ter estimado Gris o bastante, ele retrucou e os dois tiveram um belo e histórico bate-boca.

Miss Stein adorava fazer provocações. A palavra gênio exercia mesmo uma influência considerável em sua vida. Afinal era uma escritora de estilo bastante peculiar e engenhoso, a inventora da escrita automática. Assim os intelectuais de seu tempo perguntavam se ela era mesmo gênio ou não passava de uma impostora. Ela dava o troco:“Ser gênio exige um tempo medonho, indo de um lugar a outro sem nada fazer”, ou então:” um gênio é um gênio, mesmo quando nada faz”.

Com a Primeira Guerra Mundial,  Miss Stein e Alice viveram sua aventura alistando-se no F.A.F.F, um Fundo de proteção aos americanos que então viviam na Europa, dando folga a seus embates artísticos e literários, a aventura é narrada na Autobiografia. Após a guerra a vida voltou ao normal mas tudo já estava transformado para sempre, inclusive e principalmente Paris. Não tanto a fachada e a arquitetura da cidade, mas as pessoas e o ritmo da vida.

Segundo a própria autora, suas principais referências são Cézanne e Flaubert, sendo, no entanto, seus textos cheios de repetições intencionais, como em uma espécie de “gagueira mental”, geradores de um sem sentido muito próximo dos trabalhos dadaístas. É possível extrair algum sentido de seus poemas, de acordo com uma gestalt,  porém, parecem eles muito mais a experimentos sonoros. O efeito, às vezes, é próximo do efeito da leitura de um poema surrealista, embora a técnica de composição seja completamente diferente, lembrando, por vezes, a poesia mais conhecida de E.E.Cummings. Seus poemas são, muitas vezes extensos, embora nunca cedam à lógica, explorando, além das repetições de vocábulos, o uso de palavras monossilábicas, assemelhando-se a poemas em prosa. O concretismo, inventado no Brasil, exploraria isto das mais diversas maneiras e Augusto Campos, expoente deste estilo, traduziu poemas dela.

Paris à meia noite

Já que isto aqui não é uma tese  ou trabalho acadêmico, e pretende apenas divertir ou criar condições para que se possa “ver e enxergar”, vale citar a licença poética de Woody Allen, que  foi muito feliz em criar imagens para o que vai acima no seu filme “Paris à Meia Noite”.

Woody Allen recria Paris nos anos 20 e apresenta tertúlias, encontros e situações onde Hemingway e Fitzgerald são o centro das atenções e alguns dos personagens  da época aparecem e, embora não digam e não façam nada, provocam no espectador uma imaginação fantástica, especialmente se tiver noção de cada personagem. Infelizmente Woody Allen não colocou James Joyce no filme, nem Ezra Pound, bem como muitos outros, mas James Joyce nos interessa particularmente.

James Joyce

Embora irlandês, pertenceu à Geração Perdida.
Para a conclusão que quero tirar deste trabalho, é preciso elaborar um pouco sobre James Joyce, não porque todas estas outras ilustres e talentosas figuras não mereçam, mas porque Joyce foi autor talvez do livro mais complexo e talvez mais perfeito sobre uma cidade que se tem noticia, que foi Dublin, que ele teve a intenção de que pudesse ser recriada através do seu livro Ulysses.

Ulysses

Foi publicado em 1922 e sua publicação também merece uma nota especial e explico porque lá e as circunstancias que envolveram esta publicação acabaram fazendo de  1922  um ano fundamental na história do modernismo na literatura de língua inglesa.
T S Elliot fundou a Revista Criterion e publicou The Wasteland.
O Premio Pullitzer de poesia foi estabelecido.
James Joyce publica Ulysses.
Porém, no Brasil foi o ano mais representativo que se tem noticia para nossa literatura e comento a parte.
Quanto a Ulysses, este livro adquiriu notoriedade inicialmente mais pela sua proibição que pelo seu conteúdo, já que é um livro que é de “segunda intenção”,  isto é, não é o que está escrito que vale, mas o que esta por trás.
Foram  as descrições dos aspectos fisiológicos da natureza humana que impediram sua publicação e não seu conteúdo, que demoraria muito tempo para ser percebido e representava um considerável avanço para as limitações que a palavra impressa representa na representação da saga humana, especialmente na literatura.
A segunda intenção de Joyce é de uma complexidade e confusão estonteante, em Inglês, e sua tradução para outras línguas, apresenta um obstáculo dos mais poderosos que existem intelectualmente.
O estilo confuso de, Joyce,  é chamado de fluxo de consciência, com paródia, trocadilhos e virtualmente todas as demais técnicas literárias que existem para apresentar seus personagens.
Pessoalmente, já tentei inúmeras vezes ler o livro, mas não consigo saboreá-lo e neste momento de minha vida, eu alimento um projeto de vida que é explicar James Joyse e suas obras, especialmente  Ulysses, e Finnegan’s Wakeque pode ser visto no estagio que está clicando-se aqui.
A primeira tradução para o Português de Ulysses foi feita pelo dicionarista e membro da Academia Brasileira de Letras, Antonio Houaiss em 66. Existe outra menos famosa, de Bernardina Pinheiro, em 2005. Há ainda uma tradução inédita, assinada por Caetano Galindo. A primeira edição da obra em Portugal, em 1983, foi uma adaptação do texto de Houaiss, com alteração apenas ortográfica. Somente em 1989 foi publicada uma tradução portuguesa, assinada por João Palma-Ferreira.
Não fazem sentido algum, ou melhor, não fazem o sentido que Joyce teve em mente, como aliás não faz sentido em Inglês mesmo para quem conhece apenas o idioma.
Uma coisa notável é que existe um culto ao livro, que levou à criação do Bloomsday, comemoração celebrada na Irlanda e em várias outras partes do mundo no dia 16 de Junho, dia em que ocorre a narrativa do livro.
Alias, o Ulysses de Joyce adapta a Odisséia de Homero, condensando a viagem de Odisseu (na pessoa do agente de publicidade Leopold Bloom) em 24 horas, entre os dias 15 e 16 de junho de 1904. Em  Dublin, os fãs da obra refazem o percurso dos personagens Stephen Dedalus e Leopold Bloom pelas ruas da cidade conforme descritas por Joyce.
A propósito, Who Goes with Fergus? Quem vai com Fergus? De W B Yeats, publicado pela primeira vez em 1892, é a canção que assombra Stephen Dedalus, no personagem autobiográfico de James Joyce. Stephen canta para sua mãe enquanto ela está morrendo e seu fantasma retorna para ameaçá-lo com esta musica. Este era uma das letras de musica favoritas de Joyce, para o qual ele criou um ambiente musical seu.
No Brasil, o Bloomsday é comemorado desde 1994 na cidade de Santa Maria no Rio Grande do Sul e aqui em minha cidade, Campinas S.Paulo, também é comemorado, conforme o jornal local anuncia.
Dentro da idéia de “ver e enxergar”, menciono (extraindo da Wikipedia) que este livro, Ulysses, consiste em dezoito capítulos, cada um cobrindo aproximadamente uma hora do dia, começando por volta das 8 da manhã e terminando em algum ponto após 2 da madrugada seguinte. Cada um dos dezoito capítulos emprega seu próprio estilo literário. Cada um deles também se refere a um episódio específico da Odisséia de Homero e tem associado a si uma cor, arte ou ciência e órgãos do corpo humano. Esta combinação de escrita caleidoscópica com uma estrutura extremamente formal e esquemática é uma das maiores contribuições do livro para o desenvolvimento da literatura modernista do século XX. Outras são uso da mitologia clássica como a estrutura para a construção do livro, com foco quase obsessivo nos detalhes exteriores, sendo que muito da ação relevante ocorre dentro das mentes dos personagens. Joyce reconhecia as dificuldades, pois além de auxiliar na anotação que existe sobre seus livros, aceitava que tinha supersistematizado o livro e talvez devesse esclarecer as  correspondências míticas indicando-as nos capítulos, que é a primeira lição de casa de quem quer se aventurar a ler o livro, em qualquer idioma.

Sobre a publicação de Ulysses em 1922

A publicação de Ulysses coincide com a do poema The Waste Land, de T.S.Eliot.
A primeira publicação de Ulysses foi feita por Sylvia Beach, ela também uma americana expatriada de Nova Jersey que fundou a livraria e editora Shakeaspeare and Company, em 1919, no no. 7 da Rue Dupuytren, Paris.
Esta livraria funcionava como uma biblioteca e uma livraria. Sylvia Beach mudou-se para um local maior no no. 12 da Rue de l’Odéon em 1921 onde ficou até 1941. Neste período esta livraria era considerada o centro da cultura literária americana e do modernismo em Paris. Escritores e artistas da Geração Perdida mencionados se reuniam lá por longos períodos.
Sylvia Beach tinha bom gosto e os livros eram de boa qualidade e tudo isto foi mencionado no livro de Hemingway Paris é uma Festa (Moveable Feast).
Woody Allen não refilma esta livraria, como se poderia supor, mas o fim do filme mostra o personagem na frente da atual Shakeaspeare and Company.
A livraria fechou em 41 durante ocupação nazista, por desentendimento de Sylvia Beach com um oficial alemão sobre a venda do ultimo volume de Finnegans Wake, que ela lhe negou e nunca mais reabriu neste endereço.
Em 1951 outra livraria para livros em Inglês abriu na “Margem Esquerda”, do Rio Sena, pelo americano George Whitman, com o nome de Le Mistral, nos moldes da Shakeaspeare and Company e servia como ponto focal da cultura literária do lado Boêmio.
Quando Sylvia Beach morreu, o nome da livraria mudou para Shakeaspeare and Company e nos anos 50 serviu de base para escritores da Beat Generation, como Alen Ginsberg, Gregory Corso e William S.Burroughs.
Embora a livraria seja no dia a dia tocada pela filha de Whitman, ele gosta de dar um tom surrealista com suas idéias de dar abrigo a jovens talentos nos moldes de um albergue tipo YMCA, sendo que ele costuma afirmar que a livraria é “uma utopia socialista disfarçada de livraria”.
A Shakeaspeare and Company esta localizada no no. 37 da Rue de La Bûcherie, perto da Place St. Michel, de fronte ao Sena da Notre Dame e a Ile de la Cite. No local onde ela está existiu um monastério no século 16.
Com cerca de 13 leitos, Whitman afirma que cerca de 40000 pessoas já dormiram lá e existe uma rotina que parece um culto, com o chá de Domingo, leituras de poesias e encontros de escritores.
Para obter leito e comida, tem que trabalhar na livraria e foi produzido um documentário que se pode ver na Internet:
Em 2005, o Sundance Channel foi colocou no ar  Portrait of a Bookstore as an Old Manum documentário de 52 minutos que homenageia a mais famosa livraria independente de Paris,  Shakespeare and Company. (Não está mais disponivel, veja o clip acima e meu comentário abaixo). Sylvia Beach abriu uma livraria com esse nome em 1918, e logo se tornou uma casa para artistas da “Geração Perdida” (Hemingway, Pound, Fitzgerald, Stein, etc.) e também publicou a célebre obra de James Joyce, Ulysses, em 1922. A loja eventualmente fechou durante a ocupação nazista de Paris. No entanto, uma boa década depois, um excêntrico americano chamado George Whitman estabeleceu outra livraria em língua inglesa na margem esquerda e a rebatizou com o nome Shakespeare and Company. A loja de Whitman deu refúgio aos escritores Beat – Allen Ginsberg, William S. Burroughs e os demais. E é essa encarnação da lendária livraria que o documentário explora. VAle a pena ver e não deixe de assistir aos últimos cinco minutos – a menos que você já saiba como cortar o cabelo com fogo…
Vi o documentário e entendi uns 75%, e acho difícil sem letreiro pelo menos em Inglês, pois não se entende o que falam, mas a impressão, para uma pessoa velha como eu, embora aprecie a idéia do que vai ali, provoca profundo desconforto.
A publicação de Ulysses  e a relação com a Lost Generation e os Beatniks, são os  eventos geradores do impacto que o lugar tem e os artistas da geração perdida citados, porém tenho dúvidas que tenham conseguido viver ali, pois não consigo acreditar que alguém que consiga enxergar algo mais sobre a existência não queira ter dela um mínimo de condição para viver o dia a dia, coisa que me pareceu impossível para o lugar. Talvez Henry Miller tenha vivido assim não lá, nesta livraria, mas em Paris, em algum lugar miserável, e é curiosamente descartado desta lista “nobre” de geração perdida, talvez porque fosse legitimamente o único verdadeiramente perdido… Volto a ele na conclusão.

Semana de Arte Moderna em 1922, no Brasil

Nas pinceladas que dei como pano de fundo para minhas conclusões, acho a mais difícil a sobre a semana de arte moderna de 22, no Brasil, talvez por ser brasileiro e estar próximo dos efeitos dela. Volto à afirmação de Borges que já citei:

“Desvario laborioso e pobre o de compor livros extensos; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

Neste espírito, a literatura brasileira pode ser vista num lance através da seguinte figura:
Que me perdoem Jose de Alencar, Machado de Assis e outros importantes autores, mas para o foco de nossa discussão, começamos a ter lugar a partir da Semana da Arte Moderna.
Devido a problemas de custo, ausência de equipamentos, poder aquisitivo dos leitores, embora tenho certeza que houveram autores de grande valor, não conseguimos montar um time como o americano, junto dos quais eu colocaria o time brasileiro acima, e sem querer excluir outros importantes, F.Scott  Fitzgerald, W.Faulkner, Ernest Hemingway e John Steinbeck, são os grandes expoentes, porem, como os brasileiros, transpiravam um academicismo que, sem tirar-lhes o mérito, não lhes deu originalidade.
Os americanos não tiveram um James Joyce ou uma semana da arte moderna, que a meu ver tem o poder de demarcar o inicio de algo novo e original. Creio que isto para os americanos isto ficou a cargo de Tenessee Williams e, principalmente Arthur Miller, a meu ver o mais marcante de todos os autores modernos americanos. Henry Miller é hors concours, mas é considerado um pouco maldito.
A Street car named Desire, é um marco imbativel na análise ou descrição do embate entre o sul aristocrático e decadente e o norte industrializado e afluente.
A Morte do Caixeiro Viajante, The Death of a Salesman e The Crucible, dispensam comentários e  desnudam a “civilização” americana de forma inexoravel.
Erico Veríssimo analisa o Sul e o pano de fundo de nossa cultura (ou sociedade?…) e desta importante personalidade que foi Getulio Vargas, no seu O Tempo e o Vento. Jorge Amado mete a colher na ditadura Vargas,  com seu Subterrâneos da Liberade, apaixonou-se pelo comunismo, ficou casado mas separado depois de passar um tempo lá deportado por Vargas e entender o que o comunismo é realmente e partiu para uma literatura picaresca que é uma crônica dos bordéis de luxo do estado mais marcante do Brasil em termos de originalidade que é a Bahia. Quem realmente contou a historia do nordeste e da ditadura foi Graciliano Ramos, com seu Vidas Secas, que foi nosso Vinhas da Ira (Grapes of Wrath) e reconhecido pela fundação Faulkner como talvez o mais representativo de nossa literatura.
Steinbeck ganhou o Pullitzer e o Nobel e ninguém por aqui ganhou nem um nem outro…(ou nenhum…) nem poderiam, mas não resisti ao trocadilho para comentar uma questão que confunde o valor dos autores em Espanhol e Português, que é o Premio Nobel.

Como relacionar a Geração Perdida, James Joyce, Ulysses, Tenessee Williams, Arthur Miller,Henry Miller, nossa literatura, a literatura americana e a latino americana com o tema central deste trabalho e… concluir alguma coisa?

A geração perdida produziu uma literatura original e moderna no sentido do desligamento com o classicismo especialmente o imposto pelo padrão francês, que dominou o século XIX e influenciou a “inteligentsia” das Américas, quiçá da cultura ocidental.
O valor da literatura que se fez em Português e em espanhol e que se revelaria ao mundo após o corte de cordão umbilical anunciado em 1922,  seria um encontro consigo mesma e a criação do estilo que veio a ser conhecido como Realismo Fantástico em espanhol e não teve nome no Brasil. No Brasil tivemos Macunaíma, que para entender mesmo do que se trata, só sendo brasileiro. Na Argentina, influindo no resto da América Latina, a obra de Borges deu os contornos que foram seguidos pelos autores que se notabilizaram neste estilo e que inclusive ganharam Prêmios Nobel e foram traduzidos pelo mundo afora.
Coloquemos tudo isto na balança de um lado e Borges do outro e temos o valor dele.
Singlehandedly,  sozinho, como dizem os americanos enfrentou todo este vasto contingente, sem Ulysses, sem Geração Perdida, sem Semana da Arte Moderna, sem mais nada. Se a Argentina tem relativamente poucos autores, porem tem muitos leitores, dado o alto nível cultural do seu povo.
Gabriel Garcia Márquez com seu Cem anos de solidão  foi quem jogou no cenário mundial a literatura latino americana e ele mesmo reconhece o valor primordial de Borges, o primeiro a apontar o caminho e que, sem ser um Joyce, demanda uma certa familiarização para saborear sua obra e por isto parece ser secundário, mas é básico.
A Globalização, a facilidade de transito entre todos estes locais, a Internet, faz com que pouco a pouco vá caindo o véu e, usando-se os critérios sugerido por McLuhan de ir anotando explicando tudo isto, veremos que Buenos Aires não se parece com Paris apenas arquitetonicamente, mas rigorosamente tem o mesmo papel de berço ou de moldura para o reconhecimento a nível mundial de como se vive por aqui.
E, para concluir, acho incrível que não existam ambientes similares aos de Paris com gente criando arte em todas suas formas, como aconteceu em Paris nos anos 20, pois o fator básico da presença dos artistas em Paris no passado é algo que ocorre hoje em Buenos Aires: os preços são accessíveis…
Da Semana de 22 no Brasil, com efeito globalizado, tivemos apenas o concretismo, pois o Brasil, muito bem refletido em Macunaíma, não é para principiantes…
Nossa forma de aparecer foi com a musica, especialmente a Bossa Nova e para mim, Vinicius de Morais é o que seria o equivalente de Borges, ou Hemingway, ou… Joyce… e é o mais Macunaima de todos os Macunaimas que este pais já produziu…
Mas já viajei demais nesta mayonaise e faria melhor se voltasse aos bancos escolares e estudasse tudo isto mais detidamente…
Na verdade este trabalho todo é sobre sentimento que uma cidade provoca e para isto, vejamos

O que dizem quem anda por ai (a reportagem do NY Times sobre cidades)

Onde Hemingway iria?

 

 

De volta para O futuro: Hoje, em 1960

Buenos Aires esta parada no tempo. Me parece que ficou em 1960, apesar de a estar vendo em 2011…

el sueño

Si el sueño fuera (como dicen) una
tregua, un puro reposo de la mente,
¿por qué, si te despiertan bruscamente,
sientes que te han robado una fortuna?
¿Por qué es tan triste madrugar? La hora
nos despoja de un don inconcebible,
tan íntimo que sólo es traducible
en un sopor que la vigilia dora
de sueños, que bien pueden ser reflejos
truncos de los tesoros de la sombra,
de un orbe intemporal que no se nombra
y que el día deforma en sus espejos.
¿Quién serás esta noche en el oscuro
sueño, del otro lado de su muro?

1960 02

o sonho

Se o sonho fosse (como dizem) uma
trégua, um puro repouso de tua mente,
por que, se te despertam bruscamente,
sentes que te roubaram a fortuna?
Por que é tão triste madrugar? A hora
nos despoja de um dom inconcebível,
tão íntimo que é apenas traduzível
numa modorra que a vigília doura
de sonhos, que bem podem ser reflexos
incompletos dos bens que estão na sombra,
de um orbe intemporal que não tem nome
e que o dia deforma em seus espelhos.
Quem serás esta noite no sombrio
sonho, do outro lado de seu muro?

1960 01

el tango

¿Dónde estarán? pregunta la elegía
de quienes ya no son, como si hubiera
una región en que el Ayer pudiera
ser el Hoy, el Aún y el Todavía.
¿Dónde estará (repito) el malevaje
que fundó en polvorientos callejones
de tierra o en perdidas poblaciones
la secta del cuchillo y del coraje?
¿Dónde estarán aquellos que pasaron,
dejando a la epopeya un episodio,
una fábula al tiempo, y que sin odio,
lucro o pasión de amor se acuchillaron?
los busco en su leyenda, en la postrera
brasa que, a modo de una vaga rosa,
guarda algo de esa chusma valerosa
de los Corrales y de Balvanera.

o tango

Onde estarão?, pergunta a elegia
dos que já não estão, como se houvesse
uma região em que o Ontem pudesse
ser o Hoje, o Para Sempre, o Todavia.
Onde estará (repito) o personagem
que fundou, na poeira das vielas
de terra ou em perdidos vilarejos
a seita do facão e da coragem?
Onde estarão aqueles que passaram,
deixando na epopéia um episódio,
urna lenda no tempo, e que sem ódio,
lucro ou paixão de amor se esfaquearam?
Busco-os na lenda, e na derradeira
brasa que, ao modo de urna incerta rosa,
retém algo da plebe valorosa
que é dos Corrales e de Balvanera.

1960 03

Borges e Coppola Anos 30

Jorge Luis Borges e Horacio Coppola

Borges apresenta para os argentinos uma situação similar à do concretismo para os brasileiros: O concretismo é o único movimento literário brasileiro que conseguiu repercussão internacional e Borges é o escritor argentino que conseguiu maior repercussão internacional.
Porém ambos, em suas próprias casas, não tem uma aclamação unânime que lhes reconheça seu valor.
Borges, para mim é obvio porque não ganhou premio Nobel e porque a Argentina tem uma certa dificuldade de reconhecer-lhe o valor e faltou lobby do governo, pois:
Foi contra o comunismo, o peronismo, era reacionário, não produziu uma obra literária convencional, com começo meio e fim, no fundo era um critico enciclopedista que escreveu alguns ensaios, contos e poesias, não tinha medo de denunciar o mau caráter de Pablo Neruda, ou de quem quer que fosse, incluindo (imagine!) Kafka, que alias depois mudou de idéia, excluiu o sexo de seus escritos num pais tremendamente sensual, desprezava os intelectuais pobres, enfim era politicamente incorreto.
Mas profundamente genial para um tipo de Weltanschauung[1], se é que cabe a expressão, que insere o individuo no mundo pelo surrealismo e pelo realismo mágico, que é a única coisa que a nível da cultura universal pesa efetivamente como contribuição da América Latina. Alias das Américas, pois os EUA, por exemplo, não conseguiram algo equivalente e sua inteligentsia notoriamente ia a Paris para criar e a infra-estrutura da cultura francesa é aparente até na cor da bandeira americana.
Para este tipo de trabalho que pretende ser esta ilustração de Buenos Aires com imagens literárias de Borges, o que poderia ser uma falha na sua obra é uma tremenda facilidade, pois a maior obra literária envolvendo Borges é sobre ele e não dele, que é sua biografia pelo critico uruguaio Emir Rodríguez Monegal e a cronologia de suas produções indicam contos, poesias, ensaios, nenhum romance, ou coisa pesada difícil de absorver intelectualmente.
Outra fonte para quem deseja conhecer Borges, é a biografia de James Woodall, que foi noutra direção e deu uma face humana a Borges. É muito citado que este critico fez poucas citações da obra de Borges, e mencionou apenas a confissão feita no poema O Remordimento: “Cometi o pior dos pecados / que um homem pode cometer. Não fui / feliz”.
Jose Neumani, no Jornal da Poesia, revela que Borges lhe disse,  “A imprensa”, disse-me, “é uma invenção maligna. Antes, nos tempos dos manuscritos, os escritores eram mais seletivos e seletos. Só vinham à luz textos iluminados. Depois da imprensa, ficou fácil demais publicar um livro”.
Eu não sabia disto, descobri por causa deste projeto, mas compartilho inteiramente desta idéia, que inclusive me sanciona a auto critica de me sentir capaz de fazê-lo, pois isto aqui será, antes de mais nada, um manuscrito com iluminuras e, embora seja fácil publicar um livro, como seria o caso, espero que ocorra porque pareça um manuscrito iluminado pela genialidade de Borges e de Horacio Coppola e não fruto desta facilidade.

[1] Moldura ou estrutura de crenças e idéias pelas quais um individuo ou um grupo social interpreta o mundo e interage com ele

Critério de seleção sobre Borges:

Cronológico e Por Afinidade

Dividido em Poesias, Contos, Ensaios, Não classificados e Contos.

Poesias

  • Fervor de Buenos Aires (1923)
  • Luna de enfrente (1925)
  • Cuaderno San Martín (1929)
  • Poemas (1923-1943)

Ensaios

  • Inquisiciones (1925)
  • El tamaño de mi esperanza (1926)
  • El idioma de los argentinos (1928)
  • Evaristo Carriego (1930)
  • Discusión (1932)
  • Historia de la eternidad (1936)

Não-classificados

  • Historia universal de la infamia (1935)

Por Afinidade

A literatura de Borges como um todo apresenta um problema para quem se aproxima dela, especialmente no nosso caso, que é relacioná-la com Buenos Aires: tem dimensões próprias através de um realismo mágico e de um surrealismo imanente.
Porem,  como o próprio Borges o disse, tudo que ele iria fazer o fez na sua primeira publicação Fervor de Buenos Aires, em 1923 e ali contem o suficiente para nossas finalidades. Borges surpreende quando se toma contacto com sua obra.
Seus labirintos, espelhos, sonhos, ilusões, seu fascínio por metáforas, especialmente sobre a mente humana, são o que mais transparecem. Ele vale pela forma como pensa e não pelo estilo, que até existe, mas são as idéias que ele tem que dão a ele o valor que tem. Suas historias talvez sejam o que mais causa impacto em sua obra e aproveito uma breve indicação da natureza delas com uma breve descrição de algumas, para decidir como podem entrar no nosso projeto de definir e ilustrar Buenos Aires:
(copio, transcrevo, adapto, da Internet, Wikipedia, etc)
Não consigo deixar de observar, pensando já em possíveis criticas à forma como enfrento o problema que no prólogo ao livro Ficções (1944), Jorge Luis Borges escreveu:

“Desvario laborioso e pobre o de compor livros extensos; o de espraiar em quinhentas páginas uma idéia cuja perfeita exposição oral cabe em poucos minutos. Melhor procedimento é simular que esses livros já existem e oferecer um resumo, um comentário”.

Que coincide com o que penso e sinto quando vejo extensos livros…

A Biblioteca de Babel

Borges imagina uma biblioteca infinita que abriga todos os livros possíveis, mas a maioria destes contêm seqüências aleatórias de letras. Em algum lugar, ele explica, deve haver um livro que é o catálogo de todos estes, um livro que contém a chave para todos os outros. A pessoa que possui este livro é análoga a um deus. Os livros também podem não fazer sentido ou o fazem em alguma língua já morta e o narrador, um bibliotecário, supõe que a biblioteca contem todas as possibilidades da realidade.
É um conto metafísico, no sentido de que a própria realidade pode ser considerada como uma grande biblioteca cheia de textos a espera de quem os decifre.
Poderia ser uma metáfora também sobre a sociedade dominada pela informação, um Big Brother meio mágico, menos impositivo que o de George Orwell em 1984.
Editou  esta historia em 1944 no livro Ficciones (Ficções).

O jardim dos caminhos que se bifurcam

Uma história como se fosse uma crônica policial, na qual cada evento que pode acontecer acontece. É em parte história de espionagem e investigação e em parte metafísica sobre a natureza das múltiplas realidades que podemos estar inseridos.

Tlön, Uqbar, Orbis Tertius

É um conto sobre a um mundo imaginário criado por uma sociedade secreta de filósofos que lentamente começa a tomar o nosso mundo real.

Funes, o Memorioso

Conta a historia de homem com uma memória totalmente infalível. Borges imagina o que seria estar ciente e lembrar cada detalhe da vida de uma pessoa. Curioso que ainda na década de 40,  mais precisamente 1944, Borges tenha imaginado algo que ocorre no século XX!, que é a Internet, e que se assemelha a Funes. Se pensarmos a Internet como uma infinita memória, onde se coloca de tudo, sem filtrar nada; sem seleção da qualidade da informação ou discriminação de sua origem, as conseqüências desta ideia seriam as mesmas que o conto de Borges provoca. Embora, por formação profissional (trabalhei com computadores Main Frame minha vida toda), tenho a dizer a quem estiver lendo que a Internet é toda filtrada… talvez da mesma forma como a memória de Funes o é pelo autor Borges e seria uma excelente metáfora para entender isto…

Pierre Menard, autor de D.Quixote

Borges imagina um autor do século 20 re-escrevendo Don Quixote palavra por palavra. Este livro, Borges argumenta, é superior ao original de Cervantes, apesar do fato de que eles são idênticos. “O texto de Cervantes e o de Menard são verbalmente idênticos, mas o segundo é quase infinitamente mais rico”.

Critério de seleção sobre Coppola

Todas as coisas de arte provenientes das Américas tem no fundo uma preocupação com “ser moderno”, no sentido da modernidade que se instalou no começo do século XX e ser original, e não copia do principal continente que nos influencia, a Europa.
Coppola consegue as duas coisas.
A fotografia como forma de arte, foi a penúltima a chegar, creio que o cinema foi a ultima.
Coppola foi, mais que ninguém a pessoa que fez a fotografia Argentina, quiçá latino americana, se é que existe isto, atingir este status.
Jorge Schwartz faz um excelente relato sobre não apenas isto, mas toda a trajetória de Coppola, no texto “Horacio Coppola: uma metrópole em branco e preto”, da publicação que o Instituto Moreira Salles patrocinou e que é a única publicação sobre o trabalho de Coppola no Brasil: “Horacio Coppola: Visões de Buenos Aires”.
Da mesma forma que Buenos Aires é o melhor exemplo da inspiração produzida por Paris, Coppola, na Argentina,  é a melhor inspiração produzida pela Bauhaus alemã, que consolidou a tendência inata dele pelo geométrico apesar da sua breve passagem, com o efeito importantíssimo de ter conhecido a esposa Grete Stern,.
Para o momento, vou utilizar apenas das imagens desta publicação e espero conseguir ter acesso aos trabalhos dele que tenho certeza conterão imagens perfeitas para a obra de Borges.
Não consigo deixar de observar que sua esposa, Grete Stern, que produziu montagens fotográficas criando imagens de sonhos, seria uma excelente candidata para muitos dos contos de Borges.

Por ultimo, mas não menos importante, Coppola produziu um trabalho fotográfico sobre as obras do Aleijadinho que estão no acerto do Instituto Moreira Salles, que foi uma sorte e um privilegio para nós brasileiros.

Inicialmente, quase desisti de lustrar Borges com Horacio Coppola, pela evidente discrepância que existe entre a “geometria” dele com a nebulosidade de Borges, porém, como muito bem o disse Jorge Schwartz, o estilo expressionista usado por Fritz Lang no clássico Metropolis, é o mesmo que Coppola usa.

Voltei a rever Metropolis e a impressão que o filme causa é a mesma que os contos de Borges… surpreendente… difícil de colocar em palavras… creio que a abstração do tempo do e do espaço conseguida por Fritz Lang é a mesma que Borges consegue e, embora, Coppola não sugira abstração do tempo e do espaço, o tipo de “congelamento” de momento que ele consegue, é um libelo no sentido de que não existe presente, passado ou futuro, existe apenas aquilo que vemos e sentimos ao ver… tanto dentro como fora de nós…

Decidi manter a idéia e explorá-la, apesar a aparente contradição…

Estilos de Coppola e Borges

A ilustração de Coppola para  os textos de Borges, ou os textos de Borges para explicação das fotos de Coppola apresentam esta dificuldade quase intransponível, que discuto mais um pouco:
Borges explora o tempo, o espaço, o infinito, porem o faz de forma sombria, misteriosa, indefinida,  nebulosa, quase esotérica… talvez, gótica…
Coppola é linear, claro, definido, geométrico, linear, talvez cubo futurista.
Segundo Schwartz, Coppola declarou que “A analise que Lê Corbusier fez de Buenos Aires foi decisiva para minha carreira”, na sua passagem por Montevidéu, Rio de Janeiro e S.Paulo, iniciando por Buenos Aires.
Não sei se o Lucio Costa ou o Niemeyer concordariam, mas creio que a idéia de Le  Corbusier não se materializou em nenhuma das duas capitais, mas sim em Brasília, Metropolis perfeita… porque se tivesse ocorrido, eu não estaria aqui escrevendo este trabalho…
A questão do estilo de Borges e Coppola se pode observar bem nesta combinação de foto e texto:

carnicería

Más vil que un lupanar,
la carnicería infama la calle.
Sobre el dintel
una ciega cabeza de vaca
preside el aquelarre
de carne charra y mármoles finales
con la remota majestad de un ídolo.

açougue

Mais vil que um lupanar,
o açougue rubrica como urna afronta a rua. Sobre o dintel
urna cega cabeça de vaca
preside o sabá
de carne charra e mármores finais
Com a remota majestade de um ídolo.

Não espero concordância de ninguém, espero apenas ter o direito a esta licença poética, que afinal, reflete um sentimento imaginário que pode ou não necessariamente estar apoiado na realidade, que afinal, como muito bem se conclui da obra de Borges, não existe…
Quando a divergência for insuperável ou insuportável, menciono no texto…

açougue

Outro exemplo onde o estilo é evidententemente diferente:

la recoleta

Compenetrados de caducidade
por tantas nobres certezas do pó,
demoramo-nos e baixamos a voz
entre as lentas fileiras de jazigos,
cuja retórica de sombra e mármore
promete ou prefigura a desejável
dignidade de ter morrido.
São belos os sepulcros,
o latim nu e as datas fatais, definitivas,
a conjunção do mármore e da flor
e as pracinhas coro frescor de pátio
e os muitos ontens da história
hoje detida e única.
Confundimos essa paz coro a morte
e pensamos almejar nosso fim
e almejamos o sono e a indiferença.
Vibrante nas espadas e na paixão
e adormecida na hera,
somente a vida existe.
O espaço e o tempo silo formas suas,
silo instrumentos mágicos da alma,
e quando esta se apagar
junto irão se apagando o espaço, o tempo e a morte,
como ao cessar a luz
caduca o simulacro dos espelhos~
que a tarde já foi apagando.
Sombra benéfica das árvores,
vento com pássaros que ondula sobre os ramos, alma que se dispersa em outras almas,
seria um milagre se um dia deixassem de ser, milagre incompreensível,
embora sua imaginária repetição
infame coro horror os nossos dias.
Nestas coisas pensei em la Recoleta,
nesse lugar de minhas cinzas.

la recoleta

Convencidos de caducidad
por tantas nobles certidumbres del polvo,
nos demoramos y bajamos la voz
entre las lentas filas de panteones,
uya retórica de sombra y de mármol
promete o prefigura la deseable
dignidad de haber muerto.
Bellos son los sepulcros,
el desnudo latín y las trabadas fechas fatales,
la conjunción del mármol y de la flor
y las plazuelas con frescura de patio
y los muchos ayeres de la historia
hoy detenida y única.
Equivocamos esa paz con la muerte
y creemos anhelar nuestro fin
y anhelamos el sueño y la indiferencia.
Vibrante en las espadas y en la pasión
y dormida en la hiedra,
sólo la vida existe.
El espacio y el tiempo son formas suyas,
son instrumentos mágicos del alma,
y cuando ésta se apague,
se apagarán con ella el espacio, el tiempo y la muerte,
como al cesar la luz
caduca el simulacro de los espejos
que ya la tarde fue apagando.
Sombra benigna de los árboles,
viento con pájaros que sobre las ramas ondea, alma que se dispersa en otras almas, .
fuera un milagro que alguna vez dejaran de ser, milagro incomprensible,
aunque su imaginaria repetición
infame con horror nuestros días.
Estas cosas pensé en la Recoleta,
en el lugar de mi ceniza.

La Recoleta, estilo Coppola

La Recoleta

La Recoleta 01

Estilo convergente

Bar estilo convergente

Esta foto deste Café é tão poderosa que poderia ilustrar uma grande quantidade de textos que Borges escreveu… Selecionei um trecho de uma poesia que esta emoldurada noutro contexto, mas dentro existem versos que se encaixam maravilhosamente aqui:

A noite cíclica

… Uma esquina remota
que ode estar no Norte, no Sul ou no Oeste,
mas em que vejo sempre um muro azul-celeste,
uma figueira sóbria e uma calçada rota.
Ai esta Buenos Aires. O temo, que a ouros homens
Traz ouro ou traz amor, em mim apenas funda
Esta rosa amortecida, esta vã barafunda
De ruas que repetem os pretéritos nomes.

La noche cíclica

…Una esquina remota
que puede ser Del Norte, Del Sur o Del Oeste,
pero que tiene siempre una tapia celeste,
una higuera sombría y una vereda rota.
Ahí está Buenos Aires. El tiempo que a los hombres
Trae el amor o el oro, a mí apenas me deja
Esta rosa apagada, esta vana madeja
De calles que repiten los pretéritos nombres.

as ruas

As ruas de Buenos Aires
já são minhas entranhas.
Não as ávidas ruas,
incômodas de gente e de bulício,
mas as ruas indolentes do bairro,
quase invisíveis de tão usuais,
enternecidas de penumbra e de ocaso
e aquelas mais ao longe
carentes de árvores piedosas
onde austeras casinhas apenas se aventuram,
abrumadas por imortais distâncias,
a perder-se na profunda visão
de céu e de lhanura.
São para o solitário uma promessa
porque milhares de almas singulares as povoam,
únicas perante Deus e no tempo
e sem dúvida preciosas.
A Oeste, ao Norte e ao Sul
desdobraram-se – e também são a pátria – as ruas;
tomara que nos versos que traço
estejam essas bandeiras.

las calles

Las calles de Buenos Aires
ya son mi entraña.
No las ávidas calles,
incómodas de turba y de ajetreo,
sino las calles desganadas del barrio,
casi invisibles de habituales,
enternecidas de penumbra y de ocaso
y aquellas más afuera
ajenas de árboles piadosos
donde austeras casitas apenas se aventuran,
abrumadas por inmortales distancias,
a perderse en la honda visión
de cielo y de llanura.
Son para el solitario una promesa
porque millares de almas singulares las pueblan,
únicas ante Dios y en el tiempo
y sin duda preciosas.
Hacia el Oeste, el Norte y el Sur
se han desplegado - y son también la patria -las calles;
ojalá en los versos que trazo
estén esas banderas.

calles

 

 

Inspiração em Paris – origem Séc IXX

Carlos Thays

Amanecer

Si están ajenas de sustancia Ias cosas
y si esta numerosa Buenos Aires
no es más que un sueno
que erigen en compartida magia Ias almas,
hay un instante
en que peligra desaforadamente su ser
y es el instante estremecido deI alba,
cuando son pocos los que suenan el mundo
y sólo algunos trasnochadores conservan,
cenicienta y apenas bosquejada,
Ia imagen de Ias calles
que definirán después con los otros.
Hora en que el sueno pertinaz de Ia vida
corre peligro de quebranto,
hora en que le sería fácil a Dios
matar deI todo Su obra!

Se as coisas carecem de substância
e se esta numerosa Buenos Aires
não passa de um sonho
que erigem em partilhada magia as almas,
há um instante
em que seu ser se vê em desmedido perigo
e é o instante estremecido da aurora,
quando são poucos os que sonham o mundo
e só alguns noctívagos conservam,
acinzentada e apenas em esboço,
a imagem das ruas
que depois definirão com os outros.
Hora em que o sonho contumaz da vida
corre o risco de quebranto,
hora em que para Deus seria fácil
matar inteiramente Sua obra!

Em Amanhecer, Fervor de Buenos Aires, 1923

Se existe alguém que pode ter tido uma experiência como a descrita neste detalhe desta poesia, foi Carlos Thays, que abandonou sua terra natal e radicou-se em Buenos Aires. Sua Biografia nos diz: (Wikipedia)

Carlos Thays
(20 de agosto, 1849 – 31 jan 1934). Foi um arquiteto paisagista francês-argentino, e um estudante sob orientação do arquiteto paisagista francês Édouard André.
Nascido Jules Charles Thays em Paris, França, em 1849,  Carlos Thays chegou à Argentina em 1889, após ter sido recomendado por Jean Alphand[1] ao pioneiro  argentino pioneira Miguel Crisol, que contratou Thays para projetar o Sarmiento Park, em Córdoba. Durante seu tempo em Córdoba Thays apaixonou-se pelo país jovem e decidiu passar o resto de sua vida na Argentina.
Após se mudar para Buenos Aires, ele foi nomeado Diretor da cidade de Parques e Passarelas em 1891. Esta posição deu-lhe influência significativa sobre a concepção de espaços abertos da cidade, e seu legado ainda é fortemente sentido nos jardins, ruas e praças da cidade hoje.
Os grandes projetos incluíram o plantio de árvores ao longo das ruas, remodelação e concepção de praças públicas e calçadas, bem como projetar completamente novos parques e expandindo os mais velhos.  Dos principais parques e praças que mostram particularmente a influência de Thays sobre Buenos Aires incluem os parques Centenario, Lezama, Patricios, Barrancas de Belgrano e as praças Constitución, Congreso, e Mayo.  A herança francesa de Thays é refletida em muitos dos seus projetos, a tal ponto que as parques e praças Buenos Aires são muitas vezes comparados a projetos similares em Paris

(1) Jean-Charles Adolphe Alphand, born in 1817 and died in 1891, interred at Père Lachaise Cemetery (division 66), was a French Engineer of the Corps of Bridges and Roads. Under Napoléon III, Alphand participated in the renovation of Paris directed by Baron Haussmann between 1852 and 1870, in the company of another engineer Eugène Belgrand and the landscape architect Jean-Pierre Barillet-Deschamps

Um dos maiores empreendimentos de Thays foi o Parque Tres de Febrero, uma área ampla e aberta abrangendo vários quilômetros quadrados repleta de milhares de árvores, flores, muitas fontes e monumentos no bairro de Palermo.

Um projeto ao qual ele se dedicou com carinho foi o Jardim Botânico de Buenos Aires, para o qual ele pediu ao governo da cidade a desapropriação de terras (quase 8 hectares), que ele projetou em seções para mostrar plantas organizadas por continente, com um grande seção dedicada às plantas nativas da Argentina, que eram ignoradas na elaboração de  jardins até então. O jardim teve a primeira  Ginko biloba plantada na Argentina. Concluído em 1898, o Jardín Botânico, que leva seu nome, Jardín Botánico Carlos Thays de la Ciudad Autónoma de Buenos Aires. Uma estufa, que fora primeiramente erguida na Exposição de Paris de 1889, foi trazida em seções da França para ser remontada, e é uma das cinco estufas existentes no jardim. Uma casa de tijolos no estilo Gothic Revival Inglês, na qual ele que viveu durante a construção e plantação do jardim, agora abriga o herbário e uma pequena biblioteca botânica
Ao mesmo tempo em que Thays trabalhou principalmente em Buenos Aires ao longo dos anos, ele também trabalhou em muitos projetos cívicos em outras áreas da Argentina, como a remodelação do Parque Sarmiento, em Córdoba, projetou o Parque 9 de Julio, em San Miguel de Tucumán, o Parque de la Independencia, em Rosario, e o Parque San Martin, em Mendoza.  Thays também projetou a inserção local do  luxuoso Club Hotel de la Ventana, perto de Sierra de La Ventana na Província de Buenos Aires. Trabalhos fora da Argentina incluem o planejamento urbano do bairro residencial de Carrasco, a ajuda no planejamento do Parque Rodó, e o projeto da Plaza Independencia em Montevideo, Uruguai.
Thays trabalhou mais extensivamente em Buenos Aires justamente em um período da história da cidade onde ele estava crescendo muito rápido, como resultado da imigração, especialmente da Espanha e da Itália. Freqüentemente é observado que  Thays insistiu em elevados padrões de design e freqüente espaços abertos, sem o que os espaços abertos a cidade atual provavelmente, não existiriam.
Juntamente com Perito Francisco Moreno e outras figuras proeminentes fundaram a 4 de julho de 1912  a Boy Scouts Association of Argentina.
Thays morreu em Buenos Aires em 1934.

Busto de Thays, no Jardim Botanico de Buenos Aires e a Plaza del Congreso

O que Thays nos legou e que eu senti, que é o mesmo que Edouard André nos legou também, que foi viabilizado por Hausmann por influencia de Napoleão, contem a verdadeira imagem de com o que Buenos Aires se parece.

Parque Centenario

Parque Centenario 01

PARQUE CENTENARIO

Parque Lezama

Parque Lezama 01.jpg

PARQUE LEZAMA

Parque Patricios
PARQUE PATRICIOS

Parque Barrancas de Belgrano

PARQUE BARRANCAS DE BELGRANO

Plaza Constituicion

PLAZA CONSTITUCION

Plaza Congreso

PLAZA CONGRESO

Plaza de Mayo

PLAZA DE MAYO

 

Organização deste trabalho

Peço, antecipadamente, perdão a todos, especialmente aos mais capacitados, aos mais talentosos, aos mais sensíveis, porem, quero merecer o beneficio da duvida pensando na apresentação de Borges a um livro de poesias seu:

A quem ler

Se as páginas deste  livro consentem algum verso feliz, perdoe-me o leitor a descortesia de ter sido, previamente, por mim usurpado. Nossos nadas pouco diferem; é trivial e fortuita a circunstancia de que sejas tu o leitor destes exercícios e eu seu redator.

                                    Prefacio “O Fervor de Buenos Aires”, 1923

Que, aliás, são uma tradução livre do que F.Scott Fitzgerald  escrevera, e Borges também menciona:

As to an occasional copy of verses, there are few men who have leisure to read, and are possessed of any music in their souls, who are not capable of versifying on some ten or twelve occasions during their natural lives: at a proper conjunction of the stars. There is no harm in taking advantage of such occasions.

Fitzgerald, Numa carta a Bernard Barton (1842).        

Os blocos constitutivos que imaginei são os seguintes:

Abertura

O momento e a porta, a passagem, a anulação do eu,  a revisitação de Fitzgerald, numa tentativa de eternizar o instante pelo outro, sancionaram para mim esta aventura.
A poesia de Borges, que abre este trabalho, foi a faísca inspiradora e a porta de entrada para tentar registrar as impressões que esta cidade provoca e tentar entender de onde vem tanta beleza.

I – Inspiração em Paris – origem Séc IXX

Como situar Buenos Aires no tempo?
Como sugere a foto da capa, que tirei em Buenos Aires,  dentro do espírito do poema acima, vou refletir não os séculos, mas o fim do século 19 e o inicio do século 20, numa subdivisão onde vou fazer as ligações que fizeram Buenos Aires ter o charme de Paris. Percorro Buenos Aires dos anos 20 e 30, nos textos de Borges, ilustrados pelas fotos de Coppola e fecho com Buenos Aires atual, que aliás a situo em 1960, que me parece onde ficou parada.
Este “estar parada”, longe se ser indesejável como quer a modernidade baseada na eficiência, no progresso, na velocidade, talvez seja seu maior charme.
Basta de correr para ver quem chega na lua primeiro.
Quero ver a Lua de Fronte como Borges fez em 1925.
Na minha primeira tentativa, de diário de viagem para meu uso,  parti da idéia óbvia que Buenos Aires lembra demais Paris e uma coisa que desconfiava, confirmou-se com a pesquisa:
Um dos principais responsáveis por Buenos Aires ser o que é, Carlos Thays havia sido discípulo de Edouard André, Jardineiro Principal de Paris quando ela sofreu as transformações que a fizeram o que ela é. Porém, Paris foi amplamente copiada ou recriada em vários lugares, como por exemplo Londres e Chicago, mas creio que sua melhor inspiração produziu Buenos Aires.

II – Borges e Coppola  Anos 30

Numa segunda divisão, vou situar a Buenos Aires de Borges e Coppola, centrada nos anos 30, que vai desde a publicação de Evaristo Carriego até o inicio da 2ª grande guerra.

III – De volta para O futuro: Hoje, em 1960

Numa terceira etapa, de volta para o futuro, vou apresentar Buenos Aires como a encontrei hoje, em 2011, que me parece 1960.
Sempre procurarei ligar uma imagem a um texto, que estará ligado a algo da obra de Borges e, quando for o caso, com as fotos de Coppola, que ira aparecer com maior freqüência que outros.

IV – À guisa de conclusão: E as outras cidades e experiências deste tipo?

Tento montar um quadro sobre um referencial para isto

V – Onde Hemingway iria?

A partir do referencial, examino a idéia pela ótica dos leitores do NY Times

Abordagem, aproximação, approach

Buenos Aires

“…aqui minha sombra na não menos vã
sombra final se perderá, ligeira.
Não nos une o amor e sim o espanto;
talvez por isso é que eu a amo tanto.”

Jorge Luis Borges

Existem cidades totalmente ficcionais na literatura, e um bom exemplo para nós latino americanos é Macondo de Gabriel Garcia Marques.
Existe literatura ficcional sobre cidades reais, que se transformam em cidades “literárias”. Paris e New York são talvez as primeiras candidatas. Claro que sem serem tão votadas existem outras muito importantes, como o caso de Praga de Kafka, S.Petesburgo de Dostoiewski, Dublin de James Joyce.
Estas cidades “mágicas”  existem muito mais como lugares imaginados ocupando espaços dentro das obras literárias destes autores que, se for ver bem, não existem da forma como eles as descrevem, ou melhor, as “inventaram”.
De certa forma, para mim, aconteceu o inverso: Buenos inventou em mim um lugar de sonho que já existia… nunca sonhei com ela, não sabia nada sobre ela, nunca pensei em ir lá, e… foi uma das maiores impressões que tive nesta existência.
Eu tinha certeza  que tinha perdido o precioso contato que a obra de Jorge Luís Borges propicia, principalmente aos  de natureza subjetiva, como eu, e dentre os projetos que talvez eu não vá mais ser enterrado sem realizar, estava o de entrar em contacto com a obra dele, pois o choque com Buenos Aires veio acompanhado com a sensação clara que Borges era o melhor e maior “inventor” da cidade literária que Buenos Aires.
Isto foi confirmado durante uma visita às Galerias Pacifico, em Buenos Aires, que tem um espaço cultural dedicado a ele, onde vi um mural com os seguintes dizeres:

“Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largote los anos puebla un espacio de provincias, de reinos, de montanas, de bahías, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas Poco antes de morir descubre que este paciente laberinto de lineas traza la imagen de su cara.”
J L Borges “Epilogo”, E Hacedor, Obras Completas, Emecé,1989“¡Qué maravilla definida y prolija es un plano de Buenos Aires! Los barrios ya pesados de recuerdos, los que tienen cargado el nombre: la Recoleta, el Once, Palermo, Villa Alvear, Villa Urquiza; los barrios allegados por una mistad o una caminata: Saavedra, Nunez, los Patricios el sur; los barrios en los que no estuve nunca y la fantasía puede rellenar de torres de colores, de novias, de compadritos que caminan bailando (…)”
J L Borges, Textos recobrados 1919-1929, Emecé,1997Minha primeira ideia foi fazer um diário de viagens (para meu uso) ilustrando Buenos Aires a partir das portas e de poemas de Borges, como o que abro esta proposta e a porta que me motivou a isto foi a primeira abaixo, que fotografei e que induziu a imaginar o que estaria por traz de uma coisa tão fantástica assim. Tirei outras fotos de portas, localizei outras, que se seguem .
Pota do Clube Naval
Quase na hora de voltar de Buenos Aires, deparei-me com um poster sobre portas e percebi que o que me impressionou já havia impressionado outras pessoas.

Puertas 01

 

Puertas 02.jpg

puerts index 01

  1. Palácio Duhau Localização: Alvear 1683-93
  2. Arroyo 880
  3. Bunge y Born, 25 de Mayo 501
  4. Jean Jaurés,980
  5. Embajada de BrasilÇ Arroyo 1130
  6. Obras Sanitarias de La Nacion: Cordoba 1950
  7. Pres.Luis Saenz Pena 242 
  8. San Martin 1137 
  9. Intendencia M.C.B.A.: Av. de Mayo 525  
  10. Bolsa de Comercio: 25 de Mayo 325/11
  11. Bolivar 919/17
  12. La Valle 332
  13. Museo de Arte Hispanoamericano, Ing.Fernádez Blanco: Suipacha 1422
  14. Reconquista 199
  15. Callao 868
  16. Larrea 226

Não coloquei todas porque senti muita preocupação da parte de Mariano Rueda com o copy right, que alias não é mais dele. Nao tenho interesse pecuniário, mas se houver qualquer problema, retiro por solicitação de quem de direito.

Voltei ao Brasil, cheguei em casa, emoldurei o poster e o pendurei à frente de minha mesa e consegui ler em letras pequenas:
Diseño: Mariano Rueda – Fotografía Marcelo Crotti – Investigación Arq. Silvia Diehl Todos Derechos reservados.Foi assim que conheci pela Internet Mariano Rueda. Fomos conversando e ele sugeriu a ideia de expandir das portas para arquitetura e usar as fotos de Horacio Coppola juntamente com os textos de Borges no projeto.
Ele disse que para uma coisa mais ambiciosa como esta, poderíamos montar uma equipe e que poderíamos nos aproximar da Fundação Borges e de outras Instituições que poderiam se interessar tal projeto em forma de livro, e foi assim que chegamos até aqui.
A ideia demonstrou-se original, pois pesquisando posteriormente, eu verifiquei que ninguém tinha feito isto.
Coppola havia ilustrado um dos primeiros trabalhos de Borges,  Evaristo Carriego, em 1930. Coppola lançou também Buenos Aires 1936 – Visión fotográfica e em 2006,  Buenos Aires Coppola + Zuiria, junto com Facundo de Zuviría.

Evaristo Carriego
No Brasil, o Instituto Moreira Salles promoveu uma mostra do trabalho de Coppola em 2007 e editou um livro Visões de Buenos Aires, praticamente uma reedição do trabalho de 1936.

Copola 03
Incrivelmente, Borges e Coppola somente editaram juntos o livro de 1930 e, mesmo assim, com apenas duas fotos de Buenos Aires.
Ou seja, a idéia que me ocorreu é muito indicada e se eu não estiver no nível de competência com que Borges e Coppola sentiram Buenos Aires através de sua arte, meu sentimento não é menor e o identifico com o deles. Talvez eu não consiga atingir totalmente este casamento feito no céu, porem, ele existe para a eternidade, e eu o estou trazendo à luz.
Felizmente a obra de Borges é facilmente encontrada no Brasil e eu a examinei longa e cuidadosamente, o que foi um prazer e o que imagino seja a Buenos Aires mágica que existe na cabeça dos dois e que invadiu meu coração e meu imaginário, apresento a seguir.

Os elementos do quebracabeças que eu tive à minha frente eram esses e a partir dai, eu imaginei a seguinte:

Organização deste trabalho